Das expectativas da direita relativamente aos partidos e militantes de esquerda

Sou de esquerda e comunista desde que me conheço. Não será indiferente o facto de o meu pai e a minha mãe serem do PCP já há alguns quando eu nasci, mas nunca duvidei da minha ideologia e questionei sempre tudo. Que o digam os meus pobres professores na escola, que ficavam paralisados perante as minhas perguntas posteriormente replicadas aos meus pais em reuniões presenciais com estes. Aliás, muitas delas, só me lembro por serem recordadas pela minha mãe ou pelo meu pai em jantares de família. Que o digam os meus próprios pais, que me viram a fugir da ideologia vigente no PCP e abraçar o Trotskismo e o socialismo revolucionário após grandes discussões em jantares acalorados.

Sempre achei que este mundo tinha qualquer coisa de errada e muitas coisas sempre me pareceram incompreensíveis, a não ser que fossem integradas num filme que descrevesse uma qualquer realidade distópica. Mas uma das coisas que me fez sempre muita confusão foi a expectativa depositada nos militantes e partidos de esquerda (tudo o que esteja à esquerda do PS, não incluindo este) por parte daqueles que abominam ou dizem abominar a esquerda e os seus pensamentos e teorias, mas também por parte daqueles que preferem não tomar posição no campo político, preferindo ficar em cima do muro dizendo: “Não sou de esquerda nem de direita”.

Lembrei-me disto a propósito da estafante discussão sobre a realização da Festa do Avante, cujos argumentos contra a mesma são tão bem refutados pelo meu camarada Igor num artigo de há dias, mas que não quero aqui abordar, pois não é o propósito deste texto. Porém, um dos argumentos usados contra a festa por muita gente do campo da direita e do cimo do muro da suposta neutralidade, é o de considerar que o PCP deveria ser responsável e autocancelar a festa dada a situação pandémica que vivemos. Algo que não é exigido às grandes empresas de serviços ou produção não essencial (muitas vezes com casos positivos no seu seio), por exemplo. A Festa do Avante é o exemplo do momento, mas outros me vêm rapidamente à memória, como a abordagem moral ao caso Robles ou ao caso do genro de Jerónimo de Sousa que prestava serviços à câmara de Loures. No caso Robles até fiquei surpreendido por, perante um negócio com contornos bastante obscuros – como obteve a informação de tal prédio, quem lha terá fornecido e porquê, além da venda ao desbarato por parte da Segurança

Social dum prédio que potencialmente valeria muito mais – só se dar importância à parte moral e nada mais ter sido investigado. Provavelmente teria a ver com as pessoas e entidades que iriam ser atingidas por uma investigação mais minuciosa, mas adiante, também não é este o propósito do texto. Ou seja, o problema é mesmo com a moralidade e não com a ilegalidade a não ser quando esta última demonstra cabal e claramente uma falha moral.

Posso ter estado muito distraído, mas não me lembro de dilemas morais inerentes a outros partidos terem sido tão destrinçados por comentadores e pela própria comunicação social, como por exemplo a traição política de António Costa a António José Seguro ou a presença de Sousa Lara com a sua pensão vitalícia num partido que tanto se revoltava contra as mesmas. Mais, por vezes, nem com questões do âmbito legal, por vezes com sentenças de prisão, foi dado o mesmo nível de interesse e reprovação por parte duma grande fatia da opinião pública, permitindo até que os condenados sejam novamente eleitos para cargos públicos no local em que prevaricaram, como é exemplo o caso de Isaltino Morais. E, por esta ser uma análise qualitativa e não quantitativa, nem entro pelo número de casos de parte a parte, porém, arrisco dizer que será facilmente comprovável que casos moralmente e legalmente reprováveis à esquerda (do PS, repito) são em número bem inferior aos da direita (PS incluído), mesmo considerando a grande diferença de número cargos públicos que cada lado detém.

Assim, soa-me incompreensível como alguém que vê a esquerda como mais um player neste jogo de interesses pessoais e de grupo que é a política no sistema burguês (o tão comum “São todos farinha do mesmo saco”), possa imputar responsabilidades morais maiores àqueles partidos nos quais nunca irão depositar o seu voto, o seu apoio ou nada mais do que críticas (muitas vezes caluniosas), do que deposita naqueles onde por vezes metem a cruz ou que, no mínimo, passam incólumes ao seu vociferar clamando justiça de forma totalmente vazia e desarticulada.

Resta-me concluir, em jeito de hipótese, que esta diferença advém dum sentimento profundo (bem profundo e por vezes desconhecido pela própria pessoa) de que realmente a esquerda detém uma responsabilidade moral maior, por realmente defender princípios morais bem mais acertados e condizentes com uma sociedade mais justa, e que, da direita, tudo se espera menos arrancar olhos.

E são estas “medalhas”, ou seja, estes reconhecimentos inconfessos, que me fazem cada vez mais caminhar junto de camaradas que pretendem unir a classe trabalhadora e sectores oprimidos, falando de assuntos que mais lhes interessam, em vez de fait divers desnecessários que apenas tiram espaço na opinião pública para estas discussões bem mais frutíferas. Aqui há dias, numa reunião do Climáximo, à qual também pertenço, ouvi que nos devíamos esforçar ao máximo para retirar do espaço público de discussão os assuntos do novo normal (normalização da extrema direita, fait divers desnecessários, etc.) e assim trazer o foco da opinião pública para discussões que deviam ser normalizadas sobre exatamente o que interessa à vida das pessoas. A título de exemplos, o que se espera duma governação:

– para que esta defenda e facilite a vida às pessoas em vez das elites e do capital;

– que aja contra a crise climática em vez de adiar sine die o problema;

– que se preocupe com os sectores oprimidos (mulheres, pessoas racializadas, LGBTI+) em vez de os usar apenas como bandeiras eleitorais;

– que defenda o trabalho com os seus direitos fundamentais em vez de interesses que dependem de taxas de lucro sempre crescentes à custa dos trabalhadores e do seu trabalho;

Concordo plenamente com esta visão e temos que nos unir para evitar a normalização de certo tipo de discussões, que de normal não têm nada, e colocar o foco naquilo que deveria ser realmente normal, no sentido de comum, mas também essencial.

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