Trotsky e a fundação da IV Internacional – história e atualidade

Artigo de André Freire, publicado originalmente no site Esquerda Online.

O dia 3 de setembro de 1938 marca a data da fundação da IV Internacional – 82 anos atrás foram definidos os documentos fundacionais da nova organização numa conferência realizada nos arredores de Paris, cercada de muitas medidas de segurança devido às perseguições e assassinatos desferidos pela burocracia stalinista contra importantes militantes da Oposição de Esquerda.

Devido as já sérias ameaças à sua vida, que culminariam no seu assassinato 2 anos depois no México, Trotsky não pôde comparecer ao Congresso de Fundação da IV, tendo enviado uma carta de saudação, onde fez uma defesa categórica da tarefa estratégica de construção de uma nova internacional revolucionária. Tarefa que se dedicou arduamente nos cinco anos anteriores.

Em 1933, diante da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, e fazendo um duro balanço dos graves erros do Partido Comunista alemão e da III Internacional – degenerada pela direção stalinista, Trotsky e a direção da Oposição de Esquerda Internacional chegaram à conclusão da necessidade da fundação de uma nova Internacional.

Entre tantos erros políticos e programáticos de Stalin, destaca-se a negativa da aplicação da política da Frente Única, unificando na ação de massas os partidos comunistas e social-democratas (as duas correntes políticas fundamentais do movimento operário naquele momento), com o objetivo de enfrentar e buscar derrotar o fascismo – especialmente na Itália – e o nazismo na Alemanha.

A aplicação da Frente Única foi uma das principais resoluções políticas do quarto Congresso da III Internacional, realizado 1922, à frente da defesa desta proposta estavam Lenin e Trotsky. E, logo no momento mais importante de sua implementação, foi negada pela direção stalinista. Este grave erro produziu uma das maiores derrotas da classe trabalhadora ao nível internacional, que culminaria da eclosão da II Guerra Mundial em 1939.

Este balanço foi decisivo para que Trotsky chegasse à conclusão da morte da III Internacional como uma ferramenta útil para luta pelo socialismo. Apesar de todos os erros anteriores, perseguições e assassinatos, a Oposição de Esquerda mantinha, até este momento, sua luta para retomar uma linha marxista revolucionária nos partidos comunistas e na III Internacional.

Esta fase se encerrou em 1933, e começava outra dura batalha programática, agora pela defesa da necessidade da fundação da IV Internacional, frente as traições do stalinismo e da socialdemocracia.

O Método

Diante da enorme derrota da ascensão do fascismo e do nazismo em boa parte da Europa e dos erros do stalinismo e da socialdemocracia, imperou um momento de grande confusão nas fileiras do movimento operário internacional, produzindo dissidências de ambas correntes políticas mais importantes.

A política de Trotsky para batalhar pela fundação da IV Internacional não passava apenas por autoproclamar as forças já organizadas no interior da Oposição de Esquerda Internacional, de antemão, como a nova internacional. A IV Internacional nunca foi pensada por Trotsky como uma organização constituída apenas pelas forças do chamado Movimento Trotskista.

Justo ao contrário, colocando o debate programático com eixo prioritário desta construção, buscou o diálogo com uma série de grupos, ativistas, intelectuais, que compartilhavam uma visão crítica dos erros e das traições do stalinismo e da socialdemocracia, para iniciar o debate sobre a necessidade de uma nova internacional marxista revolucionária.

 O ponto mais alto deste processo foi uma conferência internacional realizada de forma conjunta com várias organizações socialistas e a publicação da declaração do chamado “bloco dos 4”, texto que defendia a necessidade da construção de uma nova internacional marxista, assinada pela Oposição da Esquerda Internacional, em conjunto com outros 3 grupos socialistas: o SAP alemão e as holandeses OSP e RSP (organizações que expressavam rupturas tanto com o stalinismo como com a socialdemocracia).

Na segunda metade da década de 1930, outra importante política desenvolvida foi a entrada de seções nacionais da Oposição de Esquerda Internacional em partidos e organizações socialistas, debate muito polêmico no interior da Oposição de Esquerda, mas que trouxe muitos quadros importantes para a organização, especialmente nos EUA, França e Bélgica.

Importantes polêmicas se estabeleceram, seja sobre o ingresso nos partidos socialistas ou mesmo sobre se o momento era realmente oportuno para a fundação da IV Internacional. Mas, mesmo com fortes polêmicas e rupturas, especialmente com os grupos que tinham se aproximado da Oposição de Esquerda anteriormente, uma Conferência Internacional, ocorrida em 1936, em Genebra, lança o movimento político pela fundação da IV Internacional.

O fato de que a IV Internacional tenha sido fundada dois anos mais tarde, em 1938, essencialmente com as forças que integravam a Oposição de Esquerda Internacional, inclusive com alguns importantes quadros se opondo a esta construção naquele período, não deve esconder a metodologia utilizada para dar os passos necessários para sua fundação.

Ou seja, colocando a discussão programática como uma prioridade – afinal a principal resolução do Congresso de Fundação foi a votação de um documento que ficou conhecido como o Programa de Transição – mas não deixando em segundo plano a necessidade de buscar o diálogo aberto com as distintas forças que se aproximam do programa marxista revolucionário.

A eclosão da II Guerra Mundial, em 1939; e o brutal assassinato de Leon Trotsky, em 1940; confirmariam precocemente a essência do acerto que foi a fundação da IV Internacional naquele período histórico, mesmo sendo realizada enfrentando enormes obstáculos.

Não porque esta organização tenha se tornado efetivamente de massas, como de fato não ocorreu nestas quase oito décadas, ou mesmo porque sua criação tenha evitado grandes erros políticos dos seus membros. Mas, este acerto deve ser medido à escala histórica: pela luta defensiva e estratégica, por manter vivas as ideias da Revolução de Outubro de 1917 e do programa marxista revolucionário.

Mesmo após o assassinato de Trotsky, e os erros políticos e o processo de dispersão gerados pelo imenso impacto da II Guerra Mundial, a IV sobreviveu como uma corrente internacional, mesmo que com graves crises, representando um fio de continuidade para a defesa do marxismo revolucionário.

Se hoje seria um grave erro falar da IV como uma única organização internacional, é de fácil comprovação que ela sobreviveu como um Movimento Internacional – diverso, mas que reivindica – cada um o seu modo, o seu legado político e programático.

A Actualidade

Buscando sempre fugir de cultos à personalidade e anacronismos históricos (infelizmente, ainda muito comuns no nosso meio), sim é importante refletir criticamente sobre a atualidade das principais ideias que guiaram Leon Trotsky e a Oposição de Esquerda na luta por fundar a IV Internacional.

Hoje, novamente vivemos um momento de ofensiva do capital sobre os direitos sociais e democráticos do movimento de massas e assistimos também as consequências nefastas da traição das maiores organizações políticas reformistas, de distintas vertentes, que dirigem a maioria do movimento dos explorados e oprimidos.

E, se torna fundamental reconhecer também, que as forças que reivindicam de forma geral o marxismo revolucionário, e em particular as ideias da IV Internacional, sofrem de um profundo processo de crises, rupturas e até dispersão. Justamente neste momento, também marcado por grandes dificuldades para os revolucionários, é necessário reivindicar a metodologia utilizada pela Oposição de Esquerda para a dura luta pela fundação da IV Internacional.

Em primeiro lugar, colocar a tarefa da elaboração programática em primeiro lugar, se afastando da mera repetição de formulações anteriores, buscando valorizar as referências teóricas dos que vieram antes de nós e passaram à prova da história, mas sempre buscando responder os principais problemas da nossa atualidade. Atualizar o programa é uma tarefa que cabe aos marxistas revolucionários de hoje.

Dois exemplos: temas fundamentais como a crise e a destruição capitalista do meio ambiente e as alternativas que precisam ser apresentadas pelos socialistas; assim como o papel de destaque dos oprimidos da classe trabalhadora nos novos movimentos de resistência que se levantam em todo mundo, são problemas do nosso tempo, e devem ser encarados de frente pelas organizações marxistas revolucionárias. Só assim podemos superar a marginalidade política, que acometem muitas vezes as organizações revolucionárias.

E, ao lado da prioridade do debate programático, buscar de forma permanente e consciente superar as barreiras erguidas pelo sectarismo e a autoproclamação que acabam por dificultar – e até impedir – que as forças anticapitalistas e socialistas, independente de suas origens distintas, dialoguem, discutam e polemizem de forma construtiva sobre a situação a luta de classes hoje e as tarefas necessárias para o momento.

Esta tarefa internacionalista não deve ser encarada de forma genérica, mas deve ganhar cada vez mais formas concretas, a partir das lutas que acontecem hoje em várias partes do mundo, em meio a pandemia da Covid-19 e de uma das maiores crises econômicas da história do capitalismo, com suas terríveis consequências sociais.

Nestes processos, devemos atuar sempre no sentido da reconstrução de espaços e laços comuns do movimento internacional dos explorados e oprimidos, onde devemos lutar permanentemente por uma estratégia e um programa anticapitalista e socialista para a nossa luta.

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