O Fascismo na Europa de Hoje

Parte 3

Esta é a terceira parte do artigo de Mark L. Thomas sobre o fascismo da actualidade. No nosso site foram já disponibilizadas a primeira e segunda partes.

Galvanizados por Trump

A chegada de Donald Trump à Casa Branca com a sua retórica de extrema-direita e um duro programa de nacionalismo económico deu à extrema direita e ao fascismo europeus um enorme impulso. Além disso, o surgimento dos “governos iliberais”, como o de Orban na Hungria ou o do Partido da Lei e da Justiça na Polónia, ou o governo autoritário de Vladimir Putin na Rússia, proporcionam novos referenciais para confrontar a hegemonia da democracia liberal.

Há aqui um nítido contraste com a situação internacional na qual a Frente Nacional britânica se desenvolveu nos anos 70. Nessa época, o fascismo estava de forma geral em recuo – a ditadura de Franco em Espanha e o governo autoritário em Portugal tinham sido derrubados na década de 70 e em França, a Frente Nacional foi incapaz de recolher as assinaturas necessárias para apresentar um candidato à eleição presidencial de 1981. Quando a Frente Nacional britânica olhava o mundo à sua volta nos anos 70, via-se isolada. Hoje os fascistas veem uma situação internacional que oferece valiosas experiências de aprendizagem e imitação.

O fascismo no século XXI

Marine Le Pen: o abandono do fascismo?

Existe uma perspectiva, amplamente disseminada, de que sob a liderança de Marine Le Pen, que sucedeu ao seu pai em 2011, a Frente Nacional quebrou os seus laços de cumplicidade com o fascismo e se tornou um partido mais convencional, de orientação “nacional-populista” e parlamentar. Mas embora Marine Le Pen tenha tentado recalibrar as posições públicas da Frente Nacional, trata-se de uma manobra meramente táctica para fazer crescer a respeitabilidade do partido e ampliar a sua potencial base de apoio. Louis Aliot, o vice-presidente da Frente Nacional e marido de Marine Le Pen, fez notar em 2013: “Ao distribuir panfletos nas ruas, apercebi-me que o nosso ponto fraco não era nem a imigração nem o Islão…O que impede as pessoas de votarem em nós é o anti-semitismo… Marine Le Pen concorda com isto desde que a conheço”.

Le Pen tentou afastar a Frente do anti-semitismo e afirmou ter abraçado quer a República Francesa quer os “valores republicanos”. Contudo, segundo o filósofo francês Michel Eltchaninoff, que levou a cabo um estudo dos discursos e entrevistas de Le Pen, a rejeição formal do anti-semitismo é combinada com discursos que “contêm vários elementos retóricos do discurso anti-semita”. Em primeiro lugar, um tema central para Le Pen é o que ela considera como o antagonismo entre o estado-nação e as forças do “globalismo”, definidas como uma forma de “totalitarismo” global comparável ao nazismo ou ao estalinismo. Em 2012, Le Pen afirmava:

Globalistas de esquerda e de direita louvam de forma bastante aberta o plano de um império global regido pelas leis… do mercado. Por detrás do mito etéreo de um mundo sem inimigos e de uma felicidade que só concebem de forma materialista, esconde-se uma ideologia implacável, uma ideologia totalitária, uma ideologia de mercado cujo monstruoso projecto é um planeta absorto no consumo e na produção em benefício das poucas grandes empresas e bancos que vão conseguir lucrar com a situação.

Le Pen associa este argumento superficialmente anti-capitalista à ideia de que o triunfo do mercado passa por desenraizar populações por via da migração em massa e tornar as pessoas “substituíveis” e impotentes à medida que a sua identidade e a ligação à sua história colectiva são desfeitas. O resultado é “a diluição da nação, o enfraquecimento da família, o desaparecimento da solidariedade nacional, a negação da nossa identidade e raízes, o apagar da nossa memória, o desprezo pelos valores do esforço, do trabalho, do mérito, da coragem e da integridade”. A intenção deste argumento, pseudo anti-capitalista e demagógico, é mobilizar o descontentamento dos trabalhadores com os tormentos impostos pelo neoliberalismo e dirigi-lo contra os imigrantes, vistos como o rosto da globalização. Mas quem está por trás do esforço “globalista” de corrupção da nação sã e homogénea através da imigração em massa? É o mundo da finança, controlado por misteriosos “grupos de pressão” e “grupos de interesses” que se escondem por trás do véu da democracia. Como aponta Eltchaninoff, Marine Le Pen sugere quem são essas forças misteriosas e poderosas recorrendo a nomes judeus. Portanto, embora Le Pen evite fazer comentários explícitos sobre a dominação judaica, recorre a “toda a panóplia de retórica anti-judaica”:

É evidente que o ouvinte ou leitor anti-semita encontra nas palavras de Le Pen confirmação da sua obsessão. Habituado a esconder as suas opiniões, fica feliz por encontrar alusões e ligações com elas, e consegue juntar as peças do puzzle por si próprio. Por outro lado, o ouvinte não anti-semita também se identifica com esse discurso, apesar de este estar a apenas um passo do anti-semitismo sócio-económico.

Ethan B. Katz observou que embora o principal alvo de Le Pen seja a população muçulmana de França, ela invoca recorrentemente a “diferença” judaica quando ataca os muçulmanos, ao mesmo tempo que tenta dividir muçulmanos e judeus. Quando, por exemplo, apelou à proibição de “símbolos religiosos ostensivos” em Outubro de 2016 e Fevereiro de 2017, não se limitou a mencionar o hijab muçulmano, incluiu também o kippah judaico, um “pequeno sacrifício” que, segundo ela, muitos judeus franceses estariam dispostos a fazer para derrotar o Islão. Le Pen deixou também claro que a sua exigência de que os cidadãos franceses com dupla nacionalidade de países não europeus escolham qual a nacionalidade que querem manter, embora dirigida em primeira instância aos muçulmanos com ligações ao norte de África, incluía também os judeus franceses com nacionalidade israelita. Este tipo de testes é pensado para alimentar a suspeita sobre a lealdade dos judeus franceses à nação.

O apoio ao sionismo proclamado por Le Pen como estratégia para desviar as acusações de anti-semitismo, é mais do que simples má-fé. Israel, como estado aliado do Ocidente, de carácter ocupante-colonial, racialmente segregado e altamente militarizado, que invoca frequentemente ameaças existenciais com origem em movimentos islamistas e estados “radicais”, é altamente coincidente com a mundividência de Le Pen. Além disso, os judeus cidadãos de Israel, podem ser usados como exemplo do bom judeu “nacional”, com raízes no seu estado-nação, em contraponto com o maligno judeu “cosmopolita” que supostamente promove as forças do “globalismo”. Desta forma, o apoio ao sionismo de forma alguma põe de parte o anti-semitismo.

O segundo elemento da estratégia de “branqueamento” de Marine Le Pen é a adopção da retórica republicana. A tradição do fascismo francês tem sido historicamente antagónica da República Francesa. Le Pen tem proclamado a FN como “um grande partido republicano”, dando continuidade e fortalecendo uma linha iniciada pelo seu pai durante a campanha presidencial de 2007. Esta orientação só é possível por causa da radicalização dos partidos dominantes que, como vimos acima, aderiram a uma forma de racismo cada vez mais autoritário.

A par de tudo isto, Marine Le Pen tenta recorrer frequentemente a provocações deliberadas. É o caso da comparação das orações muçulmanas na rua, que acontecem por causa da escassez de espaço nas mesquitas, com a ocupação nazi (e que em menos de um ano foram proibidas pelo governo). Evidentemente, este tipo de afirmações serve para diabolizar os muçulmanos e simultaneamente para banalizar a ocupação nazi. Durante a campanha presidencial de 2017, Marine Le Pen defendeu que a França não tinha qualquer responsabilidade pela captura de 13 000 judeus pelo regime de Vichy, e que acabariam por ser enviados para Auschwitz. Este tipo de afirmações durante uma campanha presidencial sugere que a estratégia de combinar respeitabilidade com intervenções calculadas para endurecer os seus apoiantes, mesmo que à custa votos, não terminou com a saída de Jean-Marie Le Pen.

Alternative für Deutschland: um híbrido

A Alternative für Deutschland cresceu e radicalizou-se à direita muito rapidamente. Fundada em 2013 por académicos de direita adversários do Euro e críticos da UE, tinha nas suas fileiras desde o início um pequeno núcleo de fascistas, mas escusou-se a utilizar uma retórica abertamente racista. Havia nessa época alguns paralelos com o britânico UKIP, que deu também os seus primeiros passos como partido anti-UE.

A ascensão do Pegida, um movimento de massas racista e islamofóbico lançado por nazis fora da AfD no final de 2014, galvanizou os que pretendiam colocar o racismo no centro da mensagem política da AfD. Em consequência, Bernd Lucke, o primeiro dirigente da AfD, foi afastado e substituído por Frauke Petry, que afirmou publicamente que os refugiados que cruzassem a fronteira deviam ser abatidos. O Pegida e a radicalização da AfD fortaleceram a ala fascista do partido, que aumentou a sua influência e ganhou confiança. Em Março de 2015, os líderes da ala fascista da AfD, Björn Höcke e André Poggenburg, lançaram a “Declaração de Erfurt” em que apelavam a que o partido abrisse as suas fileiras à filiação de grupos abertamente nazis. A declaração foi prontamente assinada por Alexander Gauland, um ex-democrata-cristão e figura destacada da ala fascista da AfD (e actual co-líder da AfD [NT: até Novembro de 2019]). A Declaração afirmava que a AfD se estava a adaptar “cada vez mais aos esquemas políticos do regime” e que devia em vez disso ser “uma alternativa patriótica aos partidos do regime… um movimento do nosso povo contra as experiências sociais de décadas recentes (ideologia de género, multiculturalismo, educação desleixada, etc.)… e um movimento de resistência contra o progressivo esvaziamento da soberania e identidade alemãs”. Isto era um claro apelo a que a AfD se mantivesse por fora do sistema e fosse capaz de desenvolver um núcleo duro fascista. A Declaração de Erfurt coincidiu com o lançamento de uma facção interna, Der Flügel (“A ala”) para organizar a ala fascista na luta por esta perspectiva.

O congresso de 2015 da AfD aprovou a abertura do partido aos nazis ex-membros do NPD ou do Republikaner, que até aí tinham sido impedidos de entrar. Como termo de comparação, o UKIP só se abriu aos fascistas um quarto de século depois da sua fundação, com a chegada à liderança de Gerard Batten em 2018, que alinhou o partido com os movimentos de rua islamofóbicos da Football Lads Alliance (FLA) e Tommy Robinson. Com a AfD este processo comprimiu-se num período de dois anos.

A AfD encheu-se de fascistas, marginalizando ainda mais a ala neoliberal e anti Euro. Ainda assim o partido mantém-se um híbrido – uma combinação de neoliberais racistas, conservadores nacionalistas e fascistas, mas com o factor crucial de os dois primeiros grupos estarem dispostos a trabalhar com os fascistas.

A confiança acrescida da ala fascista tem-se revelado nas afirmações provocatórias que são usadas para endurecer os seus apoiantes. Em 2017, num discurso para a juventude da AfD, em tom deliberadamente provocador, Hockë lançou um ataque à “política da memória” e referindo-se ao Memorial do Holocausto em Berlim, afirmou: “Nós alemães… somos o único povo do mundo que instalou um monumento à vergonha nacional no coração da sua capital”. Da mesma forma, Gauland afirmou perante a juventude da AfD que “Hitler e os nazis são apenas uma nódoa em mais de 1000 anos de sucessos da história alemã” – um típico exemplo de banalização e relativização da era nazi.

Por sua vez, o crescimento da ala fascista levou a que Petry, preocupada com a possível perda de apoio eleitoral, fosse demitida após um confronto com os fascistas. Matthias Quent, um estudioso académico da AfD, defende que a tensão entre Petry e Höcke reflecte a competição entre duas estratégias:

Petry pretende orientar o partido para a eventual formação de uma coligação enquanto Höcke vê a AfD como um partido movimento instrumental para tornar socialmente aceitáveis novas ideias de direita… [Höcke] encara o parlamentarismo como um meio para atingir um fim… Isso vai para lá de uma simples mentalidade de “nós contra eles” e entronca directamente com a retórica do Nacional Socialismo.

Petry foi substituida na liderança por Gauland e Alice Weidel, que representam as duas alas do partido, fascista e conservadora nacionalista respectivamente, tendo como condição a aceitação dos fascistas pelos conservadores. A ala fascista da AfD tem feito também tentativas de organizar-se entre os trabalhadores. Höcke, por exemplo, compareceu numa manifestação de trabalhadores da indústria automóvel contra o encerramento de uma fábrica em Eisenbach em Abril de 2018 (foi expulso pelos próprios trabalhadores). Foram também apresentados candidatos para as comissões de trabalhadores de algumas empresas importantes, mas com sucesso limitado.

Num livro de entrevistas com Höcke recentemente publicado Nie Zweimal in Demselben Fluss (Jamais duas vezes no mesmo rio) é possível compreender com maior clareza a natureza do projecto da ala fascista. Segundo um artigo da revista americana Jacobin, Höcke considera que estamos a viver “o capítulo final da degeneração da democracia… que será seguida de uma fase de autocracia absolutista”.Höcke define as três frentes de uma estratégia para atingir este objectivo: 1) Construir um partido político eleitoral, a AfD; 2) Movimentos de rua como o Pegida ou a turba nazi que ocupou as ruas de Chemnitz no verão de 2018; 3) Sectores simpatizantes dentro do aparelho de estado e de segurança.

O surgimento da AfD e a sua rápida radicalização à direita reflectem a forma como os partidos dominantes criaram uma atmosfera favorável para uma política racista, o que por sua vez abriu um espaço para o crescimento de projectos fascistas mais consolidados. O “cordão sanitário” que fora criado à sua volta foi enfraquecendo ao ponto de alguns sectores da direita conservadora estarem dispostos a propagar as suas ideias racistas e até a colaborar organizativamente com os fascistas. Em alguns casos, estão dispostos até a coexistir dentro de um mesmo partido.

O fascismo eleitoral e a rua: experimentando a água

Os actuais partidos eleitorais fascistas, salvo algumas excepções, não possuem nada que se pareça com as organizações paramilitares que Mussolini e os nazis criaram nos anos 20 e 30 do século XX. A Aurora Dourada na Grécia e o Jobbik na Hyngria criaram organizações paramilitares importantes o que torna estes partidos mais próximos do modelo clássico de fascismo – embora recentemente o Jobbik esteja a realizar uma “viragem eurofascista” e tentando apresentar uma imagem mais respeitável. Mas isto não significa que partidos fascistas eleitorais não tentem mobilizar-se na rua ou não tenham relações com grupos mais pequenos de nazis versados no combate de rua. A Frente Nacional em França embora não mobilize abertamente esquadrões de combate, mantém uma importante força de segurança, para proteger de forma ostensiva as iniciativas públicas do partido e os seus dirigentes, e que conta com algumas centenas de membros organizados em moldes paramilitares. Esta força de segurança mantém ligações com grupos nazis de menor dimensão como o Groupe Union Défense ou a Jeunesses Nationalistes Révolutionnaires, esta última ilegalizada após o assassinato por nazis do jovem militante antifascista Clément Méric em 2013. A AfD também tem tentado experimentar a água das mobilizações de rua sob a sua bandeira, organizando, por exemplo, desfiles no Primeiro de Maio. Guido Reil, o organizador da manifestação da AfD em Maio de 2018, deixou claro que isso faz parte de uma estratégia dual: “Nós somos um partido alternativo e é por isso que fazemos as coisas de forma diferente dos velhos partidos. Paralelamente [ao parlamento], saímos para a rua e damos aos nossos membros e apoiantes a possibilidade de participar activamente.

Na última década assistiu-se também à emergência de movimentos de rua racistas centrados na islamofobia. Na Grã-Bretanha, estes movimentos tomaram forma na EDL [English Defense League] e mais recentemente na FLA [Football Lads Alliance], estando o movimento actualmente aglutinado em torno de Tommy Robinson. Inicialmente, a FLA tentou manter Tommy Robinson afastado, não por causa de qualquer divergência de princípio, mas por receio de minar as suas tentativas de não ser associada à extrema-direita. Mas o movimento radicalizou-se rapidamente e Robinson tornou-se a sua figura de proa, ao mesmo tempo que o UKIP se tenta reconstruir atraindo o movimento para a sua órbita. Com Robinson, o movimento tem ligações mais abertas a grupos fascistas e de extrema-direita a nível internacional, e é mais ideológico que os seus antecessores. As suas manifestações têm contado com a presença regular da Generation Identity, um movimento jovem da alt-right, e já tiveram como oradores figuras como o islamofóbico holandês Geert Wilders, o líder do Vlaams Belang Filip Dewinter ou Steve Bannon.

A presença dos fascistas contemporâneos nas ruas é muito mais fraca que a de Hitler e dos nazis. Mas isso não significa que o fascismo eleitoral não tente, pelo menos de forma embrionária, preparar-se para uma viragem para as ruas e para a criação de alas paramilitares se se vierem a verificar as circunstâncias favoráveis de uma crise social mais profunda e de uma maior radicalização à direita da política burguesa.

Conservadores, extrema direita e fascismo

Para grande parte do fascismo contemporâneo, a desproporção entre a sua força eleitoral e a sua fraca presença nas ruas pode levar parte das suas lideranças a cair na tentação de abandonar a sua estratégia de longo prazo de minar e esmagar a democracia liberal a troco de um lugar nas suas estruturas.

É o que parece ter acontecido com o velho Movimento Social Italiano (MSI) nos anos 90. Uma singularidade na Europa do pós-guerra, o MSI identificava-se abertamente com o regime de Mussolini e estabeleceu um nicho eleitoral no sul de Itália, conseguindo atingir regularmente 5 a 8% da votação em eleições legislativas. Porém, foram mantidos fora do governo pelo predomínio dos democratas-cristãos. A oportunidade para chegar ao centro do debate político e entrar no governo, pondo fim a cinco décadas de exclusão, surgiu no início dos anos 90 com o súbito colapso de todos os velhos partidos dominantes. O MSI mudou de nome para Alleanza Nazionale (AN), entrando numa coligação com a Forza Italia de Silvio Berlusconi e a Liga Norte. O preço a pagar foi a afirmação de fidelidade à democracia, assumindo-se como um partido pós-fascista e conservador. No entanto manteve sempre a ambiguidade acerca da sua transformação, havendo evidência de que a maior parte da sua militância se mantém fiel à velha causa. Após a dissolução da NA, uma das suas cisões, os Irmão da Itália (FdI), emergiu como continuador do projecto de construção de um partido fascista.

O FPÖ austríaco também chegou ao governo no início do século XXI, sob a direcção de Jörg Haider, para depois ver a sua votação despenhar-se e o partido dividir-se. Reconstruiu-se desde então com uma linha muito mais dura, com os seus quadros fascistas mais destacados a desempenhar um papel fulcral na coligação governamental que formou posteriormente com os conservadores. Como explica o socialista austríaco David Albrich, o FPÖ segue uma estratégia de reconstrução do estado segundo linhas mais autoritárias e abertamente racistas para futuramente, num ambiente mais favorável, criar uma ala para o combate de rua.

A interacção e influência mútua entre conservadores e fascistas é uma faca de dois gumes. O ressurgimento de uma força eleitoral fascista em Itália ou o sucesso recente do FPÖ como parte da coligação governamental na Áustria, reflectem o sentido de evolução actual, em que a radicalização dos partidos dominantes cria um espaço que permite aos fascistas fazer avançar o seu projecto ao invés de o abandonar.

Debilidades das organizações fascistas

Existe uma vulnerabilidade subjacente aos partidos fascistas à medida que se tentam consolidar. Mesmo no período entre as guerras mundiais havia tensões entre a tentativa de se apresentarem como forças respeitáveis, o que incluía os esforços para assegurar à classe dominante que podia negociar com os fascistas, e a construção de uma organização independente e a motivação dos seus apoiantes. Trabalhar dentro do sistema e simultaneamente manter-se alheio ao sistema para construir um quadro de fascistas é muito mais fácil quando a organização faz avanços. Os sacrifícios necessários para formar alianças como preço a pagar para chegar ao centro do debate político e ganhar mais apoios, são toleráveis na medida em que os ganhos daí obtidos sejam claros e palpáveis. Os elementos contraditórios podem começar a romper-se perante qualquer impasse ou perda de apoios.

Hitler e os nazis foram sacudidos por várias revoltas internas ainda antes de chegarem ao poder. Há dois episódios que são reveladores. O primeiro foi a revolta de Stennes, um reflexo das tensões entre os combatentes de rua das SA, impacientes com a direcção política do partido e a sua predisposição para o compromisso com os partidos conservadores, que se reflectia no recurso a um verniz legalista, mesmo que apenas verbal, para conseguir entrar no parlamento. A tensão transformou-se em conflito aberto durante a campanha eleitoral de 1930 para o Reichstag. As SA de Berlim, sob a liderança de Walter Stennes, revoltaram-se contra a direcção do partido, movidas pelo ressentimento com a falta de financiamento, de autonomia e de lugares nas listas de candidatos. Após neutralizar a segurança das SS, vandalizaram a sede regional do Partido Nazi em Berlim. Como realça Ian Kershaw:

A crise trouxe à tona – e não pela última vez – o conflito estrutural existente no NSDAP entre a organização do partido e as SA… Estes “soldados do partido” alimentavam um desprezo permanente pelos “civis”. Os avisos frequentes de que as SA eram subordinadas à organização do partido nem sempre eram aceites pelas tropas de choque, que sentiam que eram eles quem tinha uma militância mais dura e que sofriam as baixas do combate de rua contra os comunistas e os socialistas.

Hitler foi obrigado a assumir a direcção das SA para dominar a revolta, usando a sua autoridade pessoal para as pacificar. No contexto do crescimento dos nazis estas revoltas podiam ser contidas. Mas a maior crise que sacudiu o Partido nazi teve lugar em vésperas da sua chegada ao poder. Embora nas eleições de Julho de 1932 os nazis tenham duplicado a sua votação e se tenham tornado o maior partido, o caminho para o poder estava bloqueado pela recusa do presidente Paul von Hindenburg em nomear Hitler como chanceler. Nas novas eleições de Novembro, que consumiram enormes recursos ao partido, o voto nos nazis recuou pela primeira vez desde 1928. Perantes tais circusntâncias, o número dois dos nazis, Gregor Strasser, tentou negociar de forma independente um acordo com Franz von Papen, o chanceler conservador-autoritário que pretendia trazer os nazis para o governo numa posição subordinada.

Strasser tinha sido responsável pela reconstrução do partido nazi, uma reconstrução quase do zero, após o fracasso do Putsch de Munique. Tinha no entanto concluído que a aposta no tudo ou nada com que Hitler tentou levar a classe dominante alemã a aceitar a sua nomeação para a chancelaria estava condenada ao fracasso, e estava convencido que os nazis começariam a desintegrar-se se não vissem resultados dos seus esforços. Mas Strasser estava errado e foi afastado por Hitler.

Estas tensões poderiam ter sido intensificadas se tivesse havido uma estratégia eficaz do KPD, o Partido Comunista Alemão, para em conjunto com sectores do SPD (Partido Social Democrata) construir uma frente única contra os nazis, em vez de descartar os sociais-democratas como “social fascistas” e lidar com os nazis como apenas mais um partido conservador-autoritário. Isto poderia ter posto em cheque o avanço dos nazis, reforçado a crise interna e bloqueado o seu caminho para o poder. Em vez disso, a combinação do sectarismo do KPD com as ilusões da direcção do SPD no estado alemão e no seu aparato democrático, permitiram que os nazis recuperassem de todas as crises.

Se isto era verdade para o “fascismo clássico” é-o ainda mais para o fascismo eleitoral contemporâneo, mais vulnerável por ter uma base activista muito menor em comparação com a sua periferia eleitoral. Os fascistas vêem-se enredados num dilema entre a imagem respeitável que lhes dá votos e a postura mais radical e provocadora, de exposição pública do seu verdadeiro programa, exigida pelo núcleo duro do activismo fascista.

O núcleo duro fascista poderá aceitar reduzir a sua expressão pública por algum tempo, mas se esse comedimento não der resultados, se se depararem com mobilizações anti-fascistas eficazes que ponham em causa as tentativas de criar uma imagem respeitável e consigam dividir a sua periferia eleitoral mais branda do núcleo duro fascista, a frustração pode dar lugar a uma explosão, em que as tensões entre os que se identificam com uma estratégia eleitoral e os mais comprometidos com o projecto fascista vêm ao de cima e ameaçam destruir a organização.

CONTINUA BREVEMENTE

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