Trotskismo e (neo)estalinismo – um debate com Jones Manoel

O presente texto, quando foi escrito, não tinha como intenção ser publicado. Ele era um contributo para um debate interno, entre companheiros de luta, a propósito de uma palestra do youtuber brasileiro Jones Manoel em março deste ano, que pode ser vista online. Contudo, no âmbito dos 80 anos do assassinato de revolucionário russo Leon Trotsky, optei por editar o texto e publica-lo.

As minhas reflexões nada têm de original. Aliás, fazem eco de debates aparentemente datados e aborrecidos. Se optei por publica-las foi porque, entre alguns círculos da esquerda, tem surgido uma tendência de recuperação do estalinismo. Cada vez mais apresentam esta corrente como uma entre várias que poderiam contribuir para o desenvolvimento da luta anticapitalista, ao lado do pensamento de Gramsci, Rosa Luxemburgo, a escola de Frankfurt ou tantos outros.

80 anos após o assassinato de Leon Trotsky torna-se assim importante revisitar este debate. O objectivo aqui não é o de reivindicar o trotskismo como a única corrente de pensamento marxista legítima e útil, pois não é isso que penso. O marxismo e o socialismo comportam nuances e correntes diversas, que não se têm de anular entre si. O trotskismo é uma importante tradição, mas não a única – não a “verdadeira”. Porém, essa noção da pluralidade das ideias socialistas não deve estar ao serviço da confusão entre ideias que, com mais ou menos méritos, serviram e servem o projecto revolucionário e as que comprovadamente serviram o oposto.

A Palestra de Jones Manoel foi publicada em vídeo com o título enganoso “Estalinismo e Trotskismo, 80 anos de Falsa Polémica”. Ela trata essencialmente de uma questão teórica cara ao marxismo: a possibilidade – ou não – da construção do Socialismo num só país. Digo que o título é enganoso porque este é um importante aspecto de divergência entre Estalinismo e Trotskismo, mas não é o único. Mesmo que o debate em torno da teoria do “Socialismo num só País” fosse uma falsa polémica, haveria muitos outras questões que distinguem estalinismo e trotskismo. Poderíamos enumerar a teoria das Frentes Populares, ou seja da Governação dos Comunistas ao lado da burguesia liberal; a teoria da revolução por Etapas, problema ligado a este primeiro; a negação da autodeterminação das nacionalidades oprimidas; a desvalorização da luta das mulheres trabalhadoras e tantos outros que são marcas do Estalinismo que o distinguem do Trotskismo e do Leninismo.

Jones Manoel nesta palestra trata, ainda assim, um importante divisor de águas entre Estalinismo e Trotskismo: a teoria do Socialismo num só País. Sobre este tema, o palestrante opta por uma posição de aparente equidistância entre as duas correntes. Ele defende, acredito que com a melhor das intenções, que ambos os lados estariam parcialmente certos e que grande parte das divergências históricas neste terreno resultam de exageros de parte a parte. Estalinismo e Trotskismo não estariam tão longínquos neste tema, segundo Jones Manoel. Porém essa equidistância é apenas aparente, pois o talentoso orador acaba defendendo um dos lados. Ele defende a validade da teoria do Socialismo num só país, que segundo o mesmo seria uma visão cujas raízes estariam já em Lenine e no Manifesto Comunista.

Esta posição equidistante e a ideia de que a luta entre trotskismo e estalinismo é um logro masé atrativa. Apresenta-se como pacificadora de distintas correntes de esquerda e assim pretensamente unitária. É verdade que a unidade de acção nas lutas, ou inclusive em Frentes, entre correntes de esquerda distintas é possível e necessária hoje, no Brasil como em Portugal. Contudo, ela não necessita nem beneficia de confusões teóricas no terreno da estratégia e do programa. Temos entre nós, militantes e organizações de esquerda, suficientes acordos em objectivos imediatos que justifiquem essas unidades sem precisar de incorrer em confucionismos.

Lenin nunca considerou a Rússia como Socialista

Segundo o palestrante, a teoria, e até a prática, do Socialismo num só país teria origem em Lenin. Para Jones Manoel, o dirigente russo teria inicialmente apostado na expansão da revolução russa à escala europeia, afirmando que na Rússia se poderia tomar o poder, mas que o Socialismo seria conquistado só à escala internacional – o que é verdade. Mas, supostamente, perante a derrota da revolução Alemã, Italiana e Húngara, Lenine teria retificado essa posição. Teria passado então a defender que, num momento defensivo aberto com a derrota destas revoluções, a estratégia passara a ser o reforço do Socialismo na Rússia. Aqui residem várias confusões: nem Lenin mudou de estratégia nem considerada a Rússia dos anos 20 como socialista.

Jones Manoel não nos diz em que obra ou discurso Lenine proferiu tais opiniões. Ao longo da palestra, Jones Manoel cita Marx e Engels e diz em que livros se encontram as suas posições. Mas quando se refere a estas alegadas posições de Lenine, passa a citar sem citações. Na verdade atribui, certamente com a melhor das intenções, posições a Lenine que este não tinha.

Primeiro, Lenin não confundia a derrota da burguesia na Rússia com a edificação automática do Socialismo. A constatação de Lenine que era necessário reforçar o aparelho de Estado soviético nunca foi acompanhada da caracterização desse aparelho de estado como sendo Socialista. De resto afirmou-o inúmeras vezes. Numa sessão do Comité Executivo Central em 29 abril de 1918 afirmou que “a nova geração, embora mais desenvolvida, dificilmente fará a transição completa par ao socialismo”. Quase dois anos depois, num congresso de Comunas Agrícolas, disse que “Não podemos introduzir agora a ordem socialista. Queira Deus que no tempo dos nossos filhos, ou talvez dos nossos netos, seja ela estabelecida aqui”. Obviamente isso não significava desvalorizar as enormes conquistas da revolução de Outubro, a tomada do poder pelos trabalhadores e a expropriação da burguesia. Significava que, como desenvolveremos adiante, o Socialismo é muito mais que isso.

Na verdade, Lenine caracterizava o Estado por ele mesmo dirigido como um “Estado burguês sem burguesia” ou um “Estado operário com deformações burocráticas” (em “A Crise Partidária”, 19 de janeiro de 1921, Obras Completas). Ou seja, como um estado que não sendo burguês, pois a burguesia estava afastada do poder, mantinha relações sociais burguesas, como as desigualdades salariais ou a existência de um forte aparelho burocrático. Aliás, foi por isso que Lenine defendeu – inicialmente contra Trotsky – o direito da independência dos Sindicatos face aos estado soviético. Precisamente por o Estado não ser Socialista, os trabalhadores precisavam de organizações para se defenderem perante ele.

O Estado Soviético nos anos 20 não era ainda um Estado socialista mas sim o resultado de elementos contraditórios. Por um lado, caracterizava-se pelo poder soviético, que lhe conferia um carácter proletário. Por outro, era pressionado internamente pelo atraso herdado do czarismo e, externamente, pelo mundo capitalista, que, contraditoriamente, lhe conferiam características burguesas.

Lenine entendia que não poderia ser de outra forma, sendo a Rússia um país atrasado cercado pelo Imperialismo. Daqui decorria a sua visão estratégica sobre a necessidade de expandir internacionalmente a revolução, para que esta não definhasse. Por isso, nunca abandonou essa posição – aqui se encontrar a segunda confusão de Jones Manoel.

Lenin nunca abandonou o Internacionalismo

Jones Manoel afirma que a estratégia internacionalista, da expansão da revolução russa para a Europa central e daí para todo o mundo, foi abandonada por Lenin poucos anos depois da revolução. Segundo ele, essa era uma perspetiva que Lenine expressara no livro “O Estado e a Revolução”, escrito em finais de 1917, mas que abandonada depois. Isso não é verdade. Em março de 1919, no VIIIº Congresso do Partido Comunista da Rússia, Lenine afirmou “Não vivemos apenas em um Estado, mas num sistema de Estados, e a existência da República soviética lado a lado com os Estados imperialistas por um período extenso é inconcebível. No fim, um ou outro irá vencer”.

A 5 de Junho de 1921, Lenin mantinha e reforçava essa ideia:

“Ficou claro para nós que sem a ajuda da revolução internacional mundial, a vitória da revolução proletária é impossível. Mesmo antes e depois da revolução, pensávamos que a revolução também ocorreria imediatamente ou pelo menos muito em breve em outros países atrasados ​​e nos países capitalistas mais desenvolvidos, caso contrário, pereceríamos. Não obstante essa convicção, fizemos todo o possível para preservar o sistema soviético sob quaisquer circunstâncias e a todo custo, porque sabemos que estamos trabalhando não apenas para nós mesmos, mas também para a revolução internacional. ” (Obras Completas)

Lenine de facto percebeu que era preciso preservar o sistema Soviético, e por isso melhorar os seus métodos administrativos como diz, e bem, Jones Manoel. Mas de forma alguma isso faz do Estado Soviético um “Socialismo num Só país”. A Rússia Soviética, à escala internacional, era uma importante trincheira, uma posição conquistada ao inimigo. Mas mantinha-se apenas como uma posição inicial da revolução, que deveria avançar em direcção às linhas adversárias assim que possível. Enquanto isso, durante um cerco prolongado, a trincheira conquistada teria de ser administrada cuidadosamente – simples assim. Esse receio face aos métodos de administrações estatais, que Lenine tanto expressou, não nos mostram que considerava o Estado Soviético como Socialista. Demonstram antes o oposto, que por ele não ser, nem poder ser, um estado Socialista, a luta contra a sua degeneração deveria ser redobrada.

O momento defensivo aberto pela derrota da revolução Alemã mudou de facto a perspetiva de Lenin e Trotsky (sobre as posições de Estaline nestes momentos pouco se sabe, pois não desempenhava qualquer papel na definição da estratégia comunista). A perspetiva de Lenine e Trotsky após 1923 passava por, nos países ocidentais, aceitar que não estava colocada a ofensiva imediata pelo poder. Devido ao recuo da revolução europeia, a tarefa colocada era mais “recuada”, a conquista da influência sobre as massas. Mas esse era apenas um passo tático face a uma ofensiva internacional futura.

Por isso, Lenine e Trotsky tanto investiram, no IIIº e IVº Congresso da Internacional Comunista, na luta contra a “teoria da ofensiva”, defendida pela ala ultra-esquerdista da Internacional. Ao contrário, defenderam a tática da Frente Única. Esta supunha alianças com a esquerda reformista de forma a ganhar a confiança das bases operárias europeias, que, devido à derrota da onda revolucionária de 1917-21 no resto da Europa, voltaram a seguir a social-democracia. A aposta era ganhar a confiança das massas europeias no momento defensivo para poder obter vitórias revolucionárias no terreno internacional, quando a conjuntura fosse mais favorável. Esse era o eixo internacionalista de Lenine de Trotsky para, assim que possível, romper o cerco imperialista ao país dos Sovietes. Durante esse interlúdio, havia que, contra tudo e contra todos, manter o poder já conquistado na Rússia.

Para o fazer, Lenine defende inclusive um recuo também na frente interna, como foi a famosa Nova Política Económica, a NEP. Esta consistia numa abertura à economia de mercado no campo – ou seja, de relações sociais capitalistas, controladas pelo poder soviético – no marco do monopólio estatal da grande indústria e do comércio exterior. Seria possível que Lenin confundisse o Socialismo com um estado em que se mantinham importantes relações capitalistas, como pressupunha a NEP? Não por acaso o termo NEP não aparece na palestra de Jones Manuel, que cita desde a teoria da acumulação primitiva de Preobrajenski à suposta revolução na Índia. No meio de tanta erudição soviética, o palestrante ignora o acontecimento fundamental que foi a NEP. Caso citasse esta importante política, deitaria por terra a teoria de que a Rússia nos anos 20 vivia já o “Socialismo”.

A Frente Única pressupunha uma negociação com o reformismo na Europa ocidental. A NEP, que pressupunha uma cedência interna ao mercado capitalista. Estes eram recuos de facto. Mas Lenine nunca chamou “Socialismo num só país” a esses recuos. Pelo contrário, a necessidade desses recuos é a demonstração de que o Socialismo não havia vencido, pois o poder havia sido conquistado num só país, e por isso havia que fazer cedências. O que para Lenine e Trotsky era um recuou tático assumido, fruto de uma derrota – o isolamento da Rússia Soviética – para Estaline foi transformado num projecto estratégico mascarado de vitória – o Socialismo num só país.

Estavam os internacionalistas errados?

Nesta base poder-se-ia dizer que Lenine e Trotsky erraram. E que Estaline acertou contra eles. A revolução não venceu na Europa e ainda assim a Rússia soviética manteve-se. A revolução teria sobrevivido isolada, contra os prognósticos de seus fundadores.

É porém uma ilusão pensar a que revolução se manteve na Rússia no final dos anos 20 e sobretudo nos anos 30, sob Estaline e o seu mote do Socialismo nacional. Mantiveram-se as bases económicas resultantes da revolução, mas não a revolução em si. Algo aliás semelhante ao que sucedeu na Revolução Francesa, após o “Termidor” e a derrota dos Jacobinos, quando a revolução foi derrotada sem que o país regredisse para o feudalismo.

Ainda que o capitalismo só tenha sido restaurado na Rússia muitos anos depois, a verdade é que a revolução soviética sofreu um recuo profundo nos anos 30 do século XX. A incompreensão deste facto nota-se na palestra de Jones Manoel quando afirma que Estaline venceu a polémica com Trotsky porque tinha o poder do aparelho de Estado. Isso é em grande parte verdade, mas o que Jones Manoel não explica é porque é que foi Estaline, e não Trotsky (ou qualquer outro continuador do projecto bolchevique), quem conquistou o poder de estado. Ou seja, Jones Manoel não procura ver quais a forças sociais que, na base da sociedade, explicam esse desfecho na superstrutura – o triunfo de Estaline. Ele não vê que a conquista do aparelho de Estado por Estaline e a degeneração burocrática do estado soviético, foram eles mesmos fruto do isolamento da Rússia soviética, que não avançou para o Socialismo. Ao invés, isolada, a Rússia Soviética recuou para um regime esclerosado, que não se baseava na mobilização dos trabalhadores e do povo mas sim que exigia a anulação desta. Por isso, como o palestrante assume a dada altura, nos anos 30 ser-se trotskista (na verdade ser-se crítico de Estaline em geral) resultava em fuzilamento. Seria de perguntar: que Socialismo é esse em que socialistas honestos que, certos ou errados, discordavam do poder, eram fuzilados? Não será essa a prova que Lenine estava certo e que, não havendo a expansão internacional da revolução, existira o seu recuo nacional? Não terá sido esse um sinal da degeneração do estado soviético, que resulta do seu isolamento?

O que com isto quero, também, sublinhar, a explicação do regime estalinista é histórica e social. Não é a personalidade de Estaline, ainda que autoritária e paranoica, que explica o recuo da revolução soviética. O estalinismo é, mais que a causa, o efeito do recuo da revolução, primeiro no terreno internacional e depois na Rússia. Só isso pode explicar o recuo nas artes e na ciência soviéticas, que nos anos 30 viveram um definhamento oposto ao florescimento pós-revolução. Só o recuo da revolução nos anos 30, sob Estaline, explica o recuo dos direitos das mulheres, com o regresso da criminalização do aborto e a dissolução do Genotdel1 Só o recuo da revolução socialista explica que, todos aqueles que foram membros do CC do partido bolchevique à data da revolução de Outubro, tirando Lenine e outros dois, fossem assassinados a mando de Estaline. O mesmo é verdade para a expropriação forçada dos camponeses, que causou a morte pela fome de milhões, nomeadamente na Ucrânia. Esta não são expressões do Socialismo. Tão pouco foram “erros” condenáveis do estalinismo mas que não anulariam o carácter Socialista do seu regime, como por vezes se afirma. Todas estas são, na verdade, expressões do isolamento da Rússia soviética. O “Socialismo num só país” foi a ideologia que as justificava: uma doutrina que se adaptava ao isolamento, em vez de o combater. A burocracia dirigida por Estaline era uma casta que visava preservar essa ordem conservadora, que se adaptava a ela e que dela retirava privilégios materiais. A existência dessa mesma casta e do regime conservador que arrasou tantas das conquistas de Outubro foram, em si mesmas, a demonstração da impossibilidade do socialismo num só país. Não tendo avançado a revolução internacional, avançou o seu oposto, a contra-revolução nacional, ainda que sob a bandeira do Socialismo… num só pais.

Ausência do capitalismo não é sinónimo de Socialismo

A confusão que está por trás da defensa algo ingénua do “Socialismo num só país” por parte de Jones Manuel é a constatação, verdadeira, que mesmo sem a expansão internacional da revolução, o poder não voltou para o Czar. Tão pouco o capitalismo foi reintroduzido na Rússia, mesmo que sob novas formas. A Rússia e os países da URSS, e mais tarde do chamado Glacis, mantiveram-se não-capitalistas até aos anos 90. Isso deu-se por uma série de factores, o principal dos quais valida, mais uma vez, a teoria internacionalista da revolução permanente defendida por Trotsky, na senda de Lenine e Marx. A verdade é que, após o recuo entre 1923 e 1943, o Mundo viu ondas revolucionárias tão poderosas que, o Imperialismo não só não avançou definitivamente sobre a Rússia, como foi até derrotado em países como a China e depois Cuba – ainda que as direções desses processos mantivessem uma perspetiva nacionalista de coexistência pacífica com o Imperialismo.

A mobilização revolucionária dos trabalhadores e dos povos durante o século XX não levou à vitória do Socialismo no terreno internacional, mas foi suficiente para impedir a restauração capitalista na Rússia e na URSS. Assim, sem que tenha avançado para o Socialismo, a Rússia tão pouco retrocedeu para o capitalismo. Manteve-se, por um período maior do que o expectável, como um estado de transição, que ou avançava para o Socialismo pela expansão mundial da revolução, ou retrocedia para o Capitalismo. Conhecemos, infelizmente, o desfecho negativo desta tensão dialética. De resto o mesmo já havia sido previsto por Lenine, que como citamos antes, considerava que “a existência da República soviética lado a lado com os Estados imperialistas por um período extenso é inconcebível. No fim, um ou outro irá vencer”.

A ausência de capitalismo não é sinónimo automático de Socialismo. Isso seria resumir o Socialismo a um tipo de economia e não a uma novo tipo de Sociedade. O Socialismo pressupõe a expropriação do Capital, mas não se resume a isso. O Socialismo pressupõe a expansão das forças produtivas, de tal modo que superem o Capitalismo. As forças produtivas Capitalistas se expandiram – já desde o século XVI – à escala global. Como poderiam as forças produtivas Socialistas supera-las, recuando para a escala nacional ou mesmo para um conjunto limitado de países? Não foi possível, já no período das revoluções burguesas o “Capitalismo num só país” e com o Socialismo não poderia ser diferente. O Socialismo pressupõe o avanço da cultura, da ciência, dos direitos democráticos e, naturalmente, das condições de vida do povo e dos trabalhadores. Pressupõe, por isso, a mobilização permanente dos trabalhadores na escala nacional e internacional, para que se auto-determinem e não a existência de uma casta governativa que se sobrepõe aos trabalhadores e tudo decide por eles.

Nesta palestra, Jones Manoel defende que a Revolução Socialista é a tomada do poder pelos trabalhadores à escalada nacional, tomando em consideração a realidade geopolítica internacional. Esta definição não só difere da de Marx ou Lenin, ela é extremamente moderada. Aliás, ela é utópica, irrealizável, porque, como explica Lenin “a existência da República soviética lado a lado com os Estados imperialistas por um período extenso é inconcebível.”

É certo que a Revolução Socialista se inicia na escala nacional, não poderia ser de outra forma. Porém a tomada do poder à escala nacional é o seu começo, não o seu fim. Ela inicia-se na escala nacional e, a partir daí, enfrenta o Imperialismo, só podendo subsistir sob a derrota deste. Até a Revolução burguesa clássica, a Revolução Francesa, teve de expandir internacionalmente de forma a não definhar, como tão bem explica o palestrante. Como poderia a Revolução Socialista, mais avançada no seu conteúdo social, assumir moldes mais conservadores na sua forma?

Obviamente, a expansão global da Revolução não se dá “de um só golpe”, mas através de avanços e recuos e pressupõe fases de transição. Era precisamente isso que viam Lenine e Trotsky nos anos 20, aquando do recuo da revolução europeia. Mas essa transição não é o Socialismo, é uma transição na sua direcção (ou de volta ao Capitalismo). Essa transição só é revolucionária se for em direção ao enfrentamento com o Imperialismo, pela via da conquista das massas nos países ainda capitalistas para a revolução mundial. Porque do ponto de vista internacional, a expropriação da burguesia num só país é apenas uma reforma.

Repito que esse processo de expansão internacional da revolução pressupõe fases de ofensiva internacional e outras de defesa nos marcos nacionais. Porém essa defesa nacional, que pode ser em alguns momentos um recuo tático, não pode ser nunca um horizonte estratégico. A teoria do Socialismo num só país transformou um recuo nacional tático, necessário e indispensável, num projecto a longo prazo. Esse projecto, justificativo de um fechamento nacional conservador, só poderia ser liderado por uma casta burocrática desligada da base trabalhadora. Essa casta burocrática foi liderada no seu inicio por Estaline e manteve-se no poder até aos tempos de Gorbatchev, que, não podendo, nem querendo, derrotar o imperialismo, capitulou definitivamente a ele.

Do Socialismo num só país ao Capitalismo num mundo todo

A restauração do Capitalismo na URSS foi só o corolário de um processo iniciado nos anos 30 por Estaline. A coexistência pacífica com o Imperialismo mais não era do que a continuação lógica do Socialismo num só país – portanto da ideia que era possível construir uma sociedade nova cercada por uma mundo capitalista hostil. É sobre esse veredicto da História que Jones Manoel não se pronuncia. Se não quisermos ligar o estertor final da URSS à teoria num só país, pois facilmente se poderia dizer tal seria um exagero da minha parte, pensemos em como esta teoria determinou a política internacional soviética. Lembremos, por exemplo, o apoio dado por Estaline, ao lado dos Imperialismos que venceram a IIª Guerra, à criação do Estado de Israel em 1948. Pode ser Socialista um regime que apoiou a Nabka2? Pensemos na extinção da Internacional Comunista, principal projecto de Lenine desde 1914, que Estaline extinguiu como prova de boa vontade face a Roosevelt em 1943. Poderíamos igualmente falar do acordo entre Estaline e Hitler em 1939, o pacto Ribbentrop-Molotov3, que incluía a divisão da Polónia entre estes dois estados – que internacionalismo divide um outro estado num negócio com um monstro imperialista? Estes e outros exemplos demonstram que a teoria do socialismo num só país e a coexistência pacífica com o imperialismo, sua consequência lógica, não foram meramente adaptações necessária a uma correlação de forças negativa. Estas foram políticas de recuo que tornaram a correlação de forças face ao Imperialismo cada vez mais negativa, levando por fim à queda da URSS.

A correlação de forças no terreno internacional pode justificar cedências e até acordos com o inimigo. Pode obrigar até a capitulações militares perante este, como em Brest-Litovsk4. Mas nunca pode trocar as perspetivas de luta internacional no longo prazo pela amizade com o Imperialismo no curto. Essa foi, no entanto, a prática do estalinismo durante décadas. Foi assim na Revolução Chinesa nos anos 20, na Revolução Espanhola, aquando da Frente Popular Francesa ou no apoio aos Governos de Unidade Nacional no pós IIª Guerra, que reconstruiram os estados capitalistas na Itália, França e Grécia, desarmando os trabalhadores e a resistência que haviam derrotado o fascismo.

A cedência, o recuo e a capitulação, que na perspetiva internacionalista de Lenine e Trotsky eram aceitáveis temporariamente perante um inimigo mais forte, foram sob o mote do “Socialismo num só país”, a política permanente do Estalinismo. Podemos comparar esta dinâmica com a experiência da luta sindical. A negociação com os patrões ou com o governo, tal como o recuo numa greve, é aceitável em sindicalistas revolucionários em determinadas condições. Porém, só para os sindicalistas reformistas ela se torna uma política permanente, em todas e quaisquer condições.

Essa transformação das cedências e negociações com o Imperialismo em estratégia permanente foi consequência concreta e inegável da teoria do Socialismo num só país – que significou na prática o socialismo em país nenhum. A prática é o critério da verdade e a História deu o seu veredicto. Jones Manuel ignora-o na sua palestra, pois de outra forma seria impossível dizer que a luta entre o nacionalismo conservador e o internacionalismo revolucionário se resume a 80 anos de falsas discussões.

1O Genotdel ou Jenotdel foi o Departamento de Mulheres Trabalhadoras e Mulheres Camponesas do Partido Bolchevique, criado em 1919 e dissolvido em 1930 pelo governo, que considerava que a questão feminina já havia sido resolvida.

2Nabka significa “catástrofe” em árabe e é o nome dado pelos palestinianos à criação do Estado de Israel, data precedida da expulsão dos palestinianos das duas terras, seguida de toda uma política de anexação e de genocídio de estado praticado pelos sucessivos governos israelistas.

3Também conhecido como pacto Estaline-Hitler em que a URSS e a Alemanha Nazi acordam a não-agressão e dividem entre si a Polónia. É este pacto que permite a Hitler iniciar a Segunda Guerra Mundial. Só termina quando Hitler trai o acordo para invadir a URSS;

4Brest-Litovsk foi o acordo assinado com entre o Governo Soviético recém-formado e o Império Alemão em que assinam a paz em separado das restantes potências, com significativas perdas territoriais e económicas para a Rússia.

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