Não há autoestradas

A afirmação do título é cada vez mais uma constatação, frequentemente mal interpretada ou, pior, deturpada. Escrevo-a no sentido da relação, muitas vezes contraditória, entre a presente situação política e as suas perspectivas futuras, cujas caracterizações e análises são fundamentais para a construção de partidos ou de qualquer tipo de organização política.

Se pensarmos nas nossas vidas, concluímos que a situação ou o estado em que nos encontramos não são, para a maioria trabalhadora, aqueles em que esperaríamos estar. Isto não se deve necessariamente a uma fraca capacidade de planeamento ou ao não-estabelecimento de objectivos. Existem é um conjunto de obstáculos colocados no caminho, que somos obrigados a superar e que impossibilitam considerá-lo uma autoestrada, por muito que assim o desejássemos. Se isto é verdade para cada um(a) de nós, não seria de esperar que aplicássemos a mesma linha de pensamento na Política enquanto principal componente da vida em sociedade?

No que respeita à esquerda anticapitalista, a má interpretação desta visão assenta no seu alegado carácter derrotista e desmoralizador, que atrasa e sabota a perspectiva revolucionária das organizações e, no limite, impossibilita a revolução. Para o reformismo e os partidos parlamentarizados, é mais vista da perspectiva eleitoral, contrariando a expectativa da melhoria dos resultados e da conquista de mais representantes. Mas se existissem de facto autoestradas na Política – o que é mesmo assim é insuficiente para a afirmação de qualquer projecto – a Esquerda seria hegemónica e o socialismo já seria uma realidade internacional. Não existiriam crises, polémicas ou rupturas nos partidos anti-capitalistas, mais ou menos legítimas ou justificáveis, que se propõem transformar a sociedade e o carácter do Estado. Tudo isto acontece não devido à existência de obstáculos, mas à sua negação ou desvalorização. Quebra-se aqui um mito.

Outra perspectiva crítica pode ser que esta se centra na opinião individual de certos militantes ou opinantes, que portanto ignoram ou rejeitam o carácter colectivo das organizações e os seus maiores recursos em relação a qualquer indivíduo. Recuso desde já qualquer organização política enquanto plataforma de expressão das visões unipessoais, muito especialmente no âmbito da Esquerda. Mesmo de pequena dimensão, as posições dos partidos de Esquerda anti-capitalista têm sido tomadas por colectivos, mesmo que de número restrito, e logo não resultam de uma só visão pessoal. Mas tal não impede que se cometam erros ou que os recursos reunidos por uma só organização ou um único colectivo sejam os suficientes para avançar com uma afirmação política mais ampla.   

Afirmar que não existem autoestradas não é uma manobra de desmoralização. Antes pelo contrário. É o primeiro passo que consiste em reconhecer as dificuldades que se colocam adiante tanto de direcções como das bases militantes e em realçar a importância de caracterizar e analisar a situação política. Já em Maio de 1940, Trotsky sintetizou as condições para a concretização da revolução[1]:

A experiência histórica estabeleceu as condições básicas para o triunfo da revolução proletária, que foram esclarecidas teoricamente:

  1. o impasse da burguesia e a consequente confusão da classe dominante;
  2. a aguda insatisfação e o desejo por mudanças decisivas nas fileiras da pequena burguesia, sem cujo apoio a grande burguesia não pode manter-se;
  3. a consciência do intolerável da situação e a disposição para as ações revolucionárias nas fileiras do proletariado;
  4. um programa claro e uma direção firme da vanguarda proletária.

Quaisquer considerações ou formulações sobre os pontos acima, sendo os três primeiros de contexto ou situação e de consciência de classe, são de grande importância e exigem sobriedade e uma extrema capacidade de avaliação. Não há respostas imediatas sobre a realidade concreta, muito mais complexa do que esperaríamos. Por vezes a situação é estável ou desfavorável para a classe trabalhadora, mas pode existir uma tendência que consideramos positiva; por outras a situação é favorável, mas a tendência pode mostrar-se de recuo. Errar na caracterização e na análise não é necessariamente catastrófico se houver a predisposição para corrigir os equívocos, mas é dramático se se tentar camuflá-los ou justificá-los.  

Considerar a eterna favorabilidade da situação, bem como a linearidade do processo de afirmação política e de construção partidária, pode ser inicialmente mobilizador e trazer frutos momentâneos, mas mais adiante o processo promete travar e originar um sentimento de frustração. Esta postura na Esquerda anticapitalista, especialmente dentro do Trotskismo, assenta teoricamente do processo histórico que foi a queda da União Soviética e do fim do bloco estalinista, após a qual as convulsões sociais que se seguiriam seriam indiscutivelmente progressivas e catapultariam a luta de classes pela revolução socialista e os seus partidos. Contrariamente à concepção do fim da História de Fukuyama, deram-se tanto eventos reaccionários como acontecimentos relevantes de contestação à democracia burguesa e ao capitalismo. Mas estes foram parcial ou totalmente derrotados e a actual situação é de relativa estabilidade, podendo sempre discutir-se as perspectivas.

Para o percurso das direcções revolucionárias de Esquerda, esta realidade mostrou-se mais decisiva do que quaisquer caracterizações e análises tendenciosas, pouco assentes na observação clara dos factos e, portanto, equivocadas. Enquanto que partidos reformistas e burgueses, não imunes a crises e reveses, foram conseguindo reinventar-se e reciclar-se, contraditoriamente negligenciando as necessidades da classe trabalhadora, os partidos revolucionários na sua maioria não aguentaram, caíram na marginalidade e continuam hoje a colapsar ou a fragmentar-se, em parte pela incapacidade ou pela rejeição de autocrítica consequente, tentando sem sucesso encaixar a realidade objectiva em concepções equivocadas, em vez de a reobservar. Assim surgem vários debates que devem ser feitos: qual a situação e a tendência actuais? São de ascenso ou de recuo? Obreirismo ou identitarismo? O que é hoje a classe trabalhadora? Como superar a marginalidade? A legitimidade e a importância destes debates podem, porém, ser secundarizados e os próprios debates instrumentalizados para validar posicionamentos errados e evitar a autocrítica.

Assumindo que não existem autoestradas, a construção de partidos revolucionários independentes pode ficar temporariamente impossibilitada, mas nunca excluída. É assim pertinente colocar a questão: necessitamos de um novo partido revolucionário? Tentarei reflectir futuramente sobre a questão.


[1] “Manifesto da IV Internacional Sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial”, Leon Trotsky, Maio de 1940

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