O Levante Negro nos EUA: Aprender para Poder Vencer

Iniciado com a onda de indignação gerada pelo brutal assassinato de George Floyd, o movimento de protesto anti-racista e contra a violência policial nos EUA dura há mais de dois meses. Alguns estudos indicam que se trata do maior movimento de massas na história recente dos EUA. As sucessivas manifestações alcançaram dimensões superiores à da luta dos direitos civis, contra a guerra do Vietname ou das recentes mobilizações das mulheres contra Trump. Isto num contexto de pandemia e de duríssima repressão.

O movimento já obteve diversas vitórias, nomeadamente na retirada de forças policiais enviadas pelo Governo Trump para diversas cidades. Noutras, o movimento alcançou o cancelamento do recolher obrigatório. Em New York, o “mayor” aceitou reduzir o investimento na polícia. Esquadras da polícia foram tomadas em algumas cidades. Em Seattle, os manifestantes chegaram a controlar uma zona inteira no centro da cidade, onde auto-organizaram uma “comuna”, independente das autoridades da cidade e da polícia. Noutras cidades, acampamentos de várias semanas congregaram milhares de activistas junto das “City Halls” (Câmaras Municipais). A luta extravasou os seus temas iniciais e aprofundou a própria ideia de “Black Lives Matters”, como se viu na manifestação com milhares de pessoas em New York sob o mote “Black Trans Lives Matters” – contra o assassinato de transsexuais negras, desproporcionalmente violentadas pela polícia.

Debates antes impensáveis, em torno do papel (ou sequer da existência!) da polícia, alcançaram uma audiência de milhões. Os representantes e pensadores da ordem global capitalista estão a levar muito a sério este movimento. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, assinalou como a actual ordem global está próxima de um “ponto de ruptura”, devido às desigualdades crescentes, citando o movimento despertado pela morte de George Floyd como uma expressão dessa realidade. Bruno Maçães, antigo secretário de Estado dos assuntos europeus, num artigo escrito para a Foreign Policy associa o confinamento causado pela pandemia e o levante nos EUA. “A rápida passagem do confinamento para o protesto esteve longe de ser uma coincidência (…) Os manifestantes aprenderam com esse esforço coletivo, consciente ou inconscientemente. Acima de tudo, aprenderam que é possível outro mundo”, escreveu o antigo governante.

Na esquerda, entre aqueles que lutam contra o racismo e todas as formas de opressão e, sobretudo, no movimento negro e anti-racista, esta irrupção em terras norte-americanas tem sido uma fonte de alento. Ainda assim, talvez ainda não tenhamos parado para pensar na profundidade deste movimento e no que ele pode significar para a luta de classes globalmente. Na verdade, só com alguma distância temporal poderemos avaliar as mudanças abertas por este momento, que a pandemia e a nova crise capitalista inauguraram, abrindo espaço para estas mobilizações. Neste artigo, procuro sublinhar alguns elementos que nos podem ajudar a ver a importância destas mobilizações para a fase de grandes choques políticos e sociais em que estamos a entrar por todo o mundo.

Um terramoto que pode reverter a direitização do mundo

Em 2016, a eleição de Trump, poucos meses após o Brexit, abriu uma fase da política mundial marcada por uma extrema direitização da política nos mais vários níveis e países. O surgimento e reforço de diversos movimentos neo-fascistas pelo mundo fora, foram alimentados por esta vitória. Em alguns países importantes, como o Brasil, expressões deste movimento chegaram ao Governo. Noutros países, como a Bolívia, esta direitização global permitiu golpes de estado contra governos eleitos. O facto do Levante Negro irromper no país de Trump, num momento de evidente decadência do Imperialismo, expressa na gestão catastrófica que este presidente fez da pandemia, não é coincidência. Tão pouco é coincidência o facto de este movimento enfrentar pela raiz algumas das bases do aparelho e da ideologia neo-fascista, como o racismo e a repressão policial. Estes factos são da maior importância. Demonstram que o levante encabeçado pelo movimento negro e anti-racista pode colocar o neo-fascismo na defensiva, possibilitando a sua derrota. Ele já está a ajudar a derrotar Trump, que pode perder as eleições deste ano. Ainda que não garanta, de forma alguma, uma vitória “automática” contra o neo-fascismo, ou sequer uma derrota eleitoral de Trump, as possibilidades de vitória contra a extrema-direita nos EUA e no mundo são já hoje maiores – em parte graças a este movimento.

Em 2016, a vitória de Trump teve um impacto mundial, por acontecer nos EUA, a principal potência imperialista global. O mesmo acontece com o levante em curso: por se dar precisamente no centro da maior potência global, ele pode irradiar ondas de resistência para todos os países. Isso já aconteceu em momentos de revolta anteriores, mas desta vez a revolta parte do centro para a periferia. Aliás, essa internacionalização da revolta já está a acontecer. Este movimento pode cercar as forças e governos nacionalistas e neo-fascistas por todo o mundo, levando-os à derrota.

Ao mesmo tempo, vivemos nos últimos anos uma importante reorganização da esquerda norte-americana e até das ideias socialistas neste país. A fusão da crítica radical antisistémica que fermenta no seio do movimento anti-racista com as novas ideias socialistas nos EUA, pode alimentar a esquerda mundial de novas energias e radicalização. Do ponto de vista político, a explosão anti-racista em curso pode significar para a esquerda e as forças anticapitalistas o mesmo que o Brexit e a eleição de Trump significaram para a direita de todo o mundo – obviamente, desta vez na direção oposta.

Um movimento global contra as raízes do Imperialismo e Capitalismo Racial

O movimento rapidamente se expandiu por diversos países. Não por acaso, onde ele encontrou uma maior expressão foi nos países com um passado colonial, imperialista e esclavagista mais forte: Inglaterra, França ou Portugal. Isto não sucedeu por mimetismo face aos EUA. Tão pouco é uma luta “contra o passado”, ou seja, uma espécie de revolta retroactiva contra a escravatura e o colonialismo. É uma revolta cada vez mais consciente contra as estruturas de colonialismo interno que definem estas sociedades. Isso expressa-se nas bandeiras do movimento. A crítica da violência policial, que não é nova, evoluiu muito rapidamente para a exigência de desinvestimento na polícia. Em amplos sectores, do desinvestimento passou-se para a exigência da abolição da polícia e a sua substituição por outro tipo de forças de cuidado e segurança geridas pelas comunidades.

Devemos entender o Capitalismo não apenas como um sistema económico centrado na extração de mais-valia, mas como todo um sistema de dominação de classe que tem no racismo e na violência de Estado parte dos seus pilares. Esta concepção, e a constatação inerente de que essa violência de Estado se ergueu historicamente sobre bases colonialistas, racistas e esclavagistas, é definida por alguns autores como Capitalismo Racial. A partir dela, podemos vislumbrar o potencial anti-sistémico, anti-imperialista e internacionalista da nova vaga de lutas que a explosão iniciada com o assassinato de George Floyd significa. Se o capitalismo realmente existente é racial, estas são lutas anticapitalistas realmente existentes. Claro que, para milhões de manifestantes nos EUA e no mundo, têm como ponto de partida “apenas” o desejo de travar a violência policial contra negros e negras. Mas as ideias mais avançadas no seio do movimento, como a exigência de desinvestimento na polícia, já chegarem a milhões de pessoas. Isto mostra que ideias radicais, que não eram sequer cogitadas por grande parte da esquerda radical, como o fim da polícia, podem rapidamente ganhar espaço na esfera pública. A simples aparição de artigos em defesa da “Abolição da Polícia” nas páginas do New York Times, um dos mais difundidos jornais do mundo, demonstram como ideias revolucionárias, assentes em mobilizações de massas, podem penetrar pelas fissuras do capitalismo em decadência, recheando-o de material explosivo.

Toda a esquerda norte-americana é abanada por estas ondas de choque. O ressurgimento nos EUA da ideia de Socialismo, com particular interesse entre os mais jovens, anunciava já uma viragem que agora se deve aprofundar. Nos EUA – onde, até há poucos anos, ser de esquerda, mesmo que moderada, era algo tido como “radical” – reforça-se uma esquerda verdadeiramente radical. Figuras com Alexandria Ocasio-Cortez expressam essa viragem mas não só. Em Seattle, a vereadora Trotskista, Kshama Sawant tem vindo a destacar-se, primeiro ao integrar a campanha de Bernie Sanders e agora ao intervir dentro do movimento anti-racista. Angela Davis, uma veterana do feminismo negro e da esquerda anticapitalista, ressurgiu como referência para as novas gerações. Se estes são todos fenómenos que já vinham de antes da pandemia e do levante contra o assassinato de George Floyd, é de esperar que se aprofundem. O crescimento do Democratic Socialists of America (organização Social-democrata que apoiou Bernie Sanders e representa a ala esquerda do Partido Democrata) em 10 mil novos membros, é exemplo disso. E isto mesmo após a desistência de Bernie Sanders. A radicalização política à esquerda, em que inclusive ideias revolucionárias e marxistas vão ganhando espaço só pode encher de esperança os activistas de todo o mundo. Esta nova esquerda tem convergindo, na teoria e na prática, com as ideias dos novos movimentos e se enegrecido no processo – não sem tensões e conflitos, é verdade. Vemos assim que uma esquerda, anticapitalista e socialista, que almeja expressar de facto a heterogeneidade das classes trabalhadoras, deve, antes de mais, entender a importância transcendente, deste vulcão social que explodiu no coração do império.

Uma rebelião proletária e multi-racial

Logo nos primeiros dias das manifestações, Thiti Battacharya, feminista marxista ligada ao jornal The Spectre, escreveu nas redes sociais: “Não são protestos anti-racistas. É luta de classes. Uma classe trabalhadora multirracial exige o fim do regime”. A declaração revelou-se premonitória, pois ao referir o carácter multi-racial das mobilizações, não nega que elas foram encabeçadas pelo movimentos negro – pelo contrário, enfatiza que este movimento pôde colocar em marcha de uma aliança mais ampla. Simultaneamente, ao enfatizar que põem em causa todo o regime político, não nega o carácter anti-racista das mobilizações – antes enfatiza o carácter racista do regime político dos EUA.

Trata-se realmente de um levante proletário, multi-racial, cujas exigências colocam em causa o regime supremacista branco do capitalismo racial norte-americano. O carácter proletário destas mobilizações tem sido assinalado através de vários exemplos. Um dos mais destacados é o movimento de condutores de autocarros que se recusaram a transportar polícias e manifestantes detidos, um movimento que se iniciou em Minneapolis mas rapidamente alcançou todo o país e que envolveu os sindicatos e organizações da esquerda socialista. Outro exemplo, foi a greve dos estivadores de Oakland, em apoio aos protestos. Se pesquisarmos mais ainda, veremos a ligação destas greves políticas anti-racistas tanto com as greves feministas dos últimos anos, como com as greves de professoras que ocorreram em anos recentes por todo o país. Mas seria limitado ver este movimento como proletário apenas pela presença de sindicatos e greves – por mais importante que isso seja. A classe trabalhadora não se define apenas pela sua organização no local de trabalho nem pela sua relação com a produção. Essa seria uma visão sociológica e economicista da classe trabalhadora, que define a mesma como ela é “em si” mas não como ela se constrói “para si”. Esta é uma vaga gigantesca de protestos proletários, não só pela existência de greves e a presença de sindicatos. Também não o é só pela composição social das manifestações e em particular o papel dos e das trabalhadoras racializadas no trabalho produtivo e reprodutivo. Este é uma luta da classe trabalhadora por tudo isto mas pela própria forma como une segmentos crescentes dos explorados e oprimidos. Este é um movimento proletário que, no próprio processo de enfrentamento com o estado capitalista, a política, o Governo, constrói uma subjetividade colectiva, multiracial enfrentada com a classe dominante. Nesse sentido, esta vaga de mobilizações converge com um processo de ressurgimento da classe trabalhadora como sujeito revolucionário global, heterogéneo, empenhado em lutas tão multifacetadas como a crise capitalista. Este levante é herdeiro e, em certa medida, parte do mesmo processo que as primaveras árabes, os indignados espanhóis, a geração à rasca, em Portugal, o Ocupy Wall Street,  mas também recentes revoltas no Chile ou no Sudão, as greves feministas globais, o crescente movimento indígena ou as greves climáticas. Todos eles são, potencialmente, movimentos de formação de consciência de classe de um novo proletariado global. O levante negro nos EUA é uma expressão particularmente explosiva, dado o local onde ocorre, as contradições sistémicas que expõe e o momento de crise multifacetada, pandémica e económica em que ocorre.

Aprender com as lições do Movimento Negro

Nos últimos anos vivemos à escala internacional um momento político marcado pela ascensão do neo-fascismo, o reforço das tensões nacionalistas e reacionárias e o recrudescimento dos ataques sobre os povos e o planeta, com particular dano para os sectores mais oprimidos da população – mulheres, LGBTs, pessoas racializadas, imigrantes, refugiados e indígenas. Apesar de, como sempre na História, se manterem as lutas dos debaixo, estes foram anos em que a correlação de forças se mostrou defensiva, do ponto de vista dos trabalhadores e da esquerda. Porém a história não pára. O poderoso movimento despertado nos EUA pode começar a inverter essa relação – isso não está garantido, mas é uma possibilidade real. Em particular, converteu-se na principal vaga contra o neo-fascismo que ensombrou a política mundial nos últimos anos. Precisamente por isso, é um momento e o movimento que pode reforçar a esquerda socialista e anti-capitalista, desde de que esta entre na luta com a atitude certa. A esquerda, sobretudo a maioria da esquerda predominante branca, tem de valorizar este movimento, nos EUA e não só. Mas isso não basta. Teremos de aprender com o movimento, sem receio de se deixar influenciar por ele, dispostos a servir as lutas e não a servir-se delas – sempre sem abandonar uma estratégia socialista. Isso já tem acontecido com os sectores da esquerda socialista e anti-capitalista que, nos EUA, souberam ter uma visão ampla das lutas e estabelecer aliados, mesmo entre os sectores da esquerda mais moderados, que, apesar de o serem, expressam a diversidade da radicalização no país. A conclusão, provisória, é que a explosão social anti-racista nos EUA e no mundo nos deve encher de esperança. Ela demonstra a possibilidade dos explorados e oprimidos passarem à ofensiva, por todo mundo, em torno de bandeiras crescentemente anti-capitalistas.

Nesse processo é possível e necessário reforçar a esquerda socialista e anti-capitalista, desde que saibamos actualizá-la e compreender a dívida histórica que a esquerda e o movimento socialista têm com o movimento negro e  as e os militantes e lideranças racializadas. Isto implica, portanto, reconhecer que a maioria da esquerda não trata nem tratou a luta anti-racista com centralidade política – para não dizer que a desprezamos – e que deve passar a fazê-lo. Implica também assumirmos que a maioria da esquerda não estudou e não estuda os importantes contributos de teóricas e teóricos negros e que deve passar a fazê-lo. Em resumo, devemos reconhecer que temos um grande atraso. Só assim perceberemos que é fundamentada a desconfiança do movimento negro face à grande maioria da esquerda, o que implica assumir que ainda estamos a aprender a fazer esse diálogo. Essa humildade e autocrítica são-nos exigidas, à maioria das organizações e dirigentes da esquerda, pelo movimento negro que vem crescendo. É preciso aceitá-lo: a isso se chama aprender a estabelecer alianças.  O que um novo momento de lutas nos exige é a coragem de ser influenciados e, nessa medida, poder também influenciar. Essa é uma atitude que só pode brotar da total confiança na estratégia socialista e da possibilidade da sua vitória, confiança essa que o levante negro nos EUA e no mundo veio reforçar.

 

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