Como as mulheres carregam o peso da pandemia

O novo COVID 19 virou o mundo do avesso, transformou a normalidade e colocou em plena vista uma série de contradições, nomeadamente o que é considerado essencial para o funcionamento de uma sociedade e quem são as trabalhadoras e os trabalhadores indispensáveis. Ao contrário do que nos foi dito, não estamos todos no mesmo barco. Muitas de nós atravessa a pandemia numa embarcação insuflável, fustigadas pela tempestade, enquanto outros tem direito a um cruzeiro cinco estrelas que nem acusa o efeito das ondas a bater na proa. Quem se encontra já numa posição vulnerável, pelo seu género, raça, orientação sexual ou classe social, ficou ainda mais exposto aos efeitos desta crise sanitária e económica.

O COVID veio aprofundar as desigualdades já existentes. Quem não pode confinar, tendo que enfrentar o mundo todos os dias, nos transportes públicos, supermercados, setores da saúde, fábricas de peças de automóveis (essencias!) foram principalmente os setores mais pobres da sociedade, entre elas as pessoas racializadas e imigrantes. Quem pode confinar, embora com vantagem sobre quem aguentou nas ruas a pandemia, ficou sujeita às demandas do teletrabalho e tele-escola, numa gestão delicada das demais tarefas quotidianas, como as compras, as refeições, as limpezas intermináveis, os horários da família, o cuidado dos mais vulneráveis, para não falar da carga emocional que se amplificou com o clima de incerteza e medo.

Quando descrevo estas pessoas, quero que vocês saibam que a maioria tem rosto de mulher. Mulher racializada, mulher imigrante, mulher pobre, mulher trabalhadora, precária, “dona de casa”. Mulher esmagada pelo peso do COVID. Em todos os países as mulheres ganham menos, economizam menos, são mais propensas a ter empregos precários com pouca segurança ou proteção ou no setor informal, totalmente desprotegidas. A maioria das famílias monoparentais são mulheres. A maioria dos refugiados são mulheres e meninas. A maioria do trabalho de cuidado, pago e não pago, é feito por mulheres, sobrecarregadas pelo desinvestimento crescente na saúde, na educação e nos demais serviços públicos. Por isso é que as mulheres carregam mais o peso da pandemia às suas costas. 

Os números da pandemia

Segundo a DECO, o desemprego está a atingir três vezes mais mulheres do que homens (13% e 4%, respetivamente) 

De acordo com os dados do Instituto Europeu para a Igualdade de Género, 26,5% das mulheres empregadas na União Europeia trabalham em empregos precários, em comparação com 15,1% dos homens. Nos países de baixa e média renda, 92% das mulheres e 87% dos homens trabalham na economia informal. Muitas mulheres tiveram que interromper os seus trabalhos informais para cuidar da sua família durante a quarentena.

As mulheres são maioria nos setores mais expostos, ou seja, na saúde, caixas em supermercados, farmácias, lares etc, mas também são maioria nos setores em lay off ou com maior taxa de despedimento, como o turismo, vendas, estética e até educação. 

Uma investigação da Universidade de Sussex alerta para uma regressão ao “modo de vida dos anos 50” para as mulheres, com 70% das mães sendo as principais responsáveis pela educação em casa e 67% das mulheres trabalhadoras sentido-se o principal elemento parental na família. O que vemos são todas as esferas das nossas vidas a acontecerem no mesmo espaço  – o trabalho, a escola, a cantina, lavandaria, a enfermaria, o gabinete da psicóloga – e a ampla maioria das tarefas garantidas pelas mulheres. 

Segundo a OMS, “os relatos de violência contra as mulheres aumentaram de forma alarmante” e as chamadas de emergência aumentaram 60% em alguns países. Muitas mulheres ficaram reféns das suas casas e consequentemente dos seus abusadores, sem possibilidade de refúgio e muitas sem possibilidade de denunciar.

Com a canalização dos parcos recursos disponíveis para combater o vírus, as clínicas de saúde sexual e reprodutiva também estão a ser fechadas pelo mundo, havendo restrições ao acesso a contraceptivos e à IVG. A organização internacional de planeamento familiar Marie Stopes estima que podem ocorrer até 2,7 milhões de abortos inseguros (extra, ou seja, para além dos números habituais de abortos inseguros) como consequência da COVID-19.

O capitalismo só aprende a se regenerar, nunca a cuidar melhor de nós. 

Com a crise crise do Ébola em 2014; Zika em 2015–6; e recentes surtos de SARS, gripe suína e gripe aviária, foi possível observar consequências profundas e duradouras na igualdade de género. Segundo Julia Smith, da Universidade Simon Fraser, embora os rendimentos na generalidade fossem afectados, os rendimentos dos homens rapidamente voltaram aos níveis pré-crise, enquanto a recuperação do rendimento por parte das mulheres trabalhadoras demorou muito tempo”. Como foi possível verificar, não só no plano económico estamos em desvantagem. As vidas das mulheres servem para almofadar os efeitos da crise, ocupando o lugar do Estado e de políticas públicas. O impacto da pandemia pede de nós capacidades sobre-humanas. Se tudo continuar igual, o período de recuperação irá fazer o mesmo. 

Por isso, não queremos um regresso à normalidade pré-COVID, onde as desigualdades são o pão nosso de cada dia. Recusamos o discurso da unidade nacional para responder à crise, em que todas temos que fazer a nossa parte (sendo a nossa parte desproporcionalmente atribuída) e rejeitamos também as orientações do neofascismo (dentro e fora dos governos) que admitem que muitas vão morrer, mas que esse é o preço que estão dispostos a pagar para minimizar os efeitos da crise. 

Precisamos de traçar outro caminho, que passará por muita luta e resistência, para que possamos ultrapassar esta crise e construir outra sociedade. A sociedade capitalista não nos salvará, pelo contrário, atira-nos para o abismo sempre que convém.

A resistência será construída pela unidade de todas/os que lutam diariamente – já se está a traçar, com as greves feministas, as greves climáticas, as mobilizações antirracistas e antifascistas. Precisamos de chamar as organizações de esquerda, os partidos e os sindicatos, a defender-nos abertamente, pois ficar em cima do muro não resolve os problema. As nossas vidas são valiosas e merecem ser cuidadas, sem olhar ao défice e às contas orçamentais. Não queremos morrer com COVID nem queremos ser esmagadas ao aguentar os efeitos secundários da crise. 

Da unidade e solidariedade virá a nossa força. Teremos que, juntas, atravessar esta tempestade, semeando um novo futuro!

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