Que fazer perante o crescimento eleitoral do Chega?

Na 5ª feira dia 23 de Julho, foi dada a conhecer ao público mais uma sondagem conduzida pela Universidade Católica, em que o partido Chega é dado como sendo no actual momento, a terceira força partidária nas intenções de voto em Portugal.

Com especial ênfase tanto na televisão como na imprensa escrita e “online”, era sublinhada a vantagem desse partido face a Bloco de Esquerda e a PCP, quarto e quinto “classificados” na referida sondagem, passando para segundo plano o aumento do “fosso” do PS em relação a PSD, bem como, do próprio reforço do denominado “bloco central” nas intenções de voto.

Muitos dirão, e eu concordo, que essa perspectiva ou ênfase relativamente a esta sondagem não deve ser descurada, pelo contrário. A forma como é apresentada a notícia, é que será tendente a uma leitura de inevitabilidade em relação ao crescimento do partido Chega, como se independentemente daquilo que digamos e façamos, o Chega vai crescer ainda (e muito) mais. “Inevitavelmente”.

No entanto, este texto ou artigo como quiserem chamar-lhe, não pretende dissertar sobre essa “leitura” desta sondagem. Não pretende sequer dissertar sobre a origem ou “natureza” (o projecto neo-fascista, ou “direita radical”, usando ironicamente, a expressão cunhada pelo sociólogo Ricardo Marchi), sendo o partido de Ventura a “face” nacional dum fenómeno supranacional de recrudescimento da extrema direita, nem pretendo dissertar sobre as várias entidades que “patrocinam” o Chega, desde logo, através duma parte considerável da Comunicação Social. Não pretendo “dissertar” sobre o facto de o programa eleitoral deste partido para o mundo do Trabalho ser apenas e “só” o de “terminar com os privilégios dos sindicatos, nomeadamente o de poderem mobilizar pessoas nos seus sítios de trabalho”, “acabar com a figura do crime de ódio” na moldura jurídica em Portugal, impedir que “refugiados possam adquirir a nacionalidade portuguesa”, “que o Estado não deve ser promotor da Saúde”, “extinguir a figura do Primeiro Ministro”, “promover no Ensino a identidade nacional”, “reforçar o orçamento de Defesa”, “aumentar o orçamento e participação na NATO, por oposição à ONU”, “deportação imediata de migrantes em flagrante delito”, “o combate ao marxismo cultural nas escolas e contra a identidade de género”, etc, etc… Isto está tudo no programa eleitoral do próprio Chega, “ipsis verbis”. E quem como nós, defende e luta pelo exacto oposto deste partido sabe-o bem. De igual forma, os seus “apoiantes” ou potenciais eleitores/as, também cada vez mais dificilmente poderão dizer que “não sabem”, “não querem saber”, ou isso não é importante, porque “o Ventura diz muitas verdades”. Até porque apesar da sua enorme cobertura mediática, também têm vindo a lume cada mais escândalos envolvendo não só André Ventura, mas também vários membros/dirigentes nacionais do Chega, desde falsificação de assinaturas, desvio de fundos, apoios financeiros de personalidades ligadas directamente aos escândalos da banca, proliferação de “fake news” com milhares de “perfis falsos” nas redes sociais, etc, etc…

Este artigo ou texto pretende sim, ser uma exposição de linhas orientadoras mais ou menos gerais que devidamente debatidas e desenvolvidas, possam vir a ser uma base para a linha de acção para todos e todas aquelas que estão do lado oposto da “barricada” ideológica. Pretende sim, ajudar a clarificar linhas orientadoras, que a partir da teoria e leitura da realidade dos factos a possa transformar a favor exactamente de todos e todas nós, ou seja, a favor da classe trabalhadora no seu todo. E quem tem de assumir essa tarefa e dar a(s) ferramenta(s) necessárias à classe trabalhadora é exactamente quem está do outro lado da “barricada” ideológica – a Esquerda. As “Esquerdas” se quiserem.

Ao “ler-se” apenas os números das sondagens como esta em especifico, ficamos com a sensação de que, os apoiantes do Chega são cada vez mais e pior, que esses “novos” apoiantes/potenciais eleitores estão a ser “ganhos” à Esquerda, nomeadamente à Esquerda parlamentar. Não digo que não, mas seria interessante e importante até, fazer-se esse estudo, mas essa leitura, lá está, sem a devida análise, correria o risco da superficialidade, tal como também correria esse risco dizer que todos os novos apoiantes do Chega são antigos eleitores do CDS-PP ou mesmo do PSD. Mais superficial ainda seria dizer que vêm do PNR (agora denominado “Ergue-te!”). Muito embora me pareça, reforço mais uma vez sem análise aprofundada, que a maioria dos apoiantes do Chega são homens brancos, heterossexuais na faixa etária acima dos 40 anos, pequenos empresários em nome individual e com uma incidência maior fora dos grandes centros urbanos.

No entanto e apesar das sondagens não o demonstrarem, a Esquerda não se reduz a militantes ou a simpatizantes dos partidos da Esquerda parlamentar, BE, PCP, PEV ou mesmo Joacine Katar Moreira ou o Livre. Ela (a Esquerda), inclui também as organizações de trabalhadores ditas “tradicionais” como os sindicatos. Inclui os movimentos ecológicos, os movimentos antifascistas, os movimentos antirracistas, os movimentos feministas, movimentos LGBTQI+ e de defesa do direito à Habitação. Temos visto em Portugal, tal como em vários outros países do Mundo várias lutas onde esses movimentos e organizações têm estado na linha da frente por reivindicações de maior justiça social, climática, laboral, racial, etc, muitas das vezes à “revelia” das direcções partidárias da Esquerda parlamentar e porque não dizê-lo, não poucas vezes sem qualquer direcção partidária. Algo que para quem está de “fora” até pode parecer uma vantagem, porque supostamente serão dessa forma mais “livres” e menos dadas a agendas de interesses partidários. Sem me debruçar sobre exemplos concretos nos últimos anos dessas lutas a nível mundial, relembro os exemplos a nível nacional, como a jornada de luta dos estivadores em Setúbal (2018), as greves feministas que principalmente em 2019, teve grande participação em Lisboa, as manifestações antifascistas de 2019 e 2020 (no passado Sábado dia 25 de Julho, apesar do quase silenciamento na CS, por comparação à cobertura da manifestação anti antirracista do Chega há algumas semanas), as greves estudantis/climáticas, ou ainda a maior manifestação antirracista de sempre em Portugal a 6 de Junho, que em pleno “desconfinamento”, conseguiu juntar mais de 10 mil pessoas só em Lisboa.

Ora isto demonstra que existe base, existe um número significativo de pessoas, considerem-se elas activistas ou não, sejam militantes ou não, que se identificam com os ideais progressistas à esquerda. Muitas delas, além de não serem militantes de partidos da Esquerda parlamentar, nem sequer se revêm como simpatizantes dos mesmos, sendo até paradoxalmente, abstencionistas aquando dos diferentes actos eleitorais. Muitas destas pessoas, na realidade tão activas e militantes nas várias acções de luta mencionadas, por circunstâncias várias ligadas à realidade das suas vidas quotidianas, dos sítios onde vivem e trabalham diariamente, não se identificam consciente ou inconscientemente com os maiores partidos da Esquerda parlamentar, nem com as suas direcções. Além disso, não podemos descurar também a fragmentação da Esquerda a vários níveis, desde logo no número de partidos de Esquerda que existem, tenham ou não representação parlamentar. E este facto, ligado exactamente à falta de direcção, de linha de acção e de programa que una estes movimentos e a sua base, é o que leva a que apesar de toda a mobilização social que esses movimentos e lutas conseguem, apesar da ligação intrínseca à classe trabalhadora em todas as suas formas e vertentes, não se consiga por outro lado, obter nas sondagens uma intenção de voto à Esquerda capaz de disputar o poder politico. Quase como se fosse “inevitável” o crescimento de partidos como o Chega e por outro, “inevitável” que à Esquerda, às várias Esquerdas, esteja destinado apenas o papel de eternos “grupos de protesto”. Neste momento e face às sondagens, tal leitura parece uma “realidade”, especialmente para todos aqueles que limitam a sua visão da politica ao acto institucional de votar.

Portanto a tarefa que se nos coloca primeiramente, a todos os e as militantes que se reivindicam de esquerda revolucionária é exactamente mobilizar, organizar, incluir numa ampla frente, todos os movimentos acima referidos, suas vanguardas, bem como suas bases. Os e as activistas sindicais “independentes”, os lutadores e lutadoras antirracistas, antifascistas, ecologistas, LGBTQI+, feministas que se identificam à Esquerda, mas que não se revêm com nenhuma das actuais forças partidárias pelas mais variadas razões. Mas que inclua também os e as militantes/activistas desses movimentos que militem também em partidos extraparlamentares da Esquerda revolucionária, socialista, anticapitalista. Que possa através da acção conjuntamente com a teoria, “falar” aos e às militantes dos grandes partidos da Esquerda parlamentar. Pela base primeiro e principalmente. Uma frente ampla que possa verdadeiramente ser uma “ferramenta” para toda a nossa classe se preparar com todas as suas forças, para os combates decisivos que se adivinham e avizinham, contra as forças da reacção.

Para isso, será também necessário que além da mobilização, além da unidade na acção, possamos também ter, como dizia, a “ferramenta” teórica e prática que consiga unir a base da Esquerda, a sua vanguarda, a vanguarda da classe trabalhadora. Onde essa mesma base se reveja numa vanguarda que é a sua. Será uma tarefa difícil porque desde logo será necessário ultrapassar e vencer décadas de “sectarismos e dogmatismos” e para tal, será necessário a base que compõe a classe trabalhadora em todas as suas vertentes, em todas as suas interseccionalidades tomar nas suas mãos a vanguarda da sua própria direcção. Seja nas lutas e na acção, seja na teoria e na criação dum programa onde todas as “vozes” da classe trabalhadora participem directamente na sua construção.

Só assim poderão sentir e construírem a “ferramenta”, a organização de todas e todos nós, o seu partido de vanguarda que nos levará, à classe trabalhadora a disputar, a tomar o poder, à revolução internacionalista onde construamos um sistema mais justo, mais humano, mais fraterno.

É uma tarefa árdua, que como disse, enfrenta décadas de sectarismo, desconfiança, por vezes até traições. Isto além de ter de enfrentar como é óbvio, a ofensiva cada vez mais violenta do Capital, da direita mais retrógrada que só tem para “oferecer” a destruição do ambiente e do planeta, o negacionismo e obscurantismo, guerra e destruição, ódio racial e de género, a desumanização, a exploração do Homem pelo Homem. Enfim, a luta de classes na verdade, que continua.

É uma tarefa árdua sim, mas é no presente, no agora, que temos de Semear o Futuro!

José Abrantes

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s