Nova Geringonça não, mas o que fazer?

            No debate do Estado da Nação, António Costa lançou o desafio ao Bloco de Esquerda e PCP para a reedição da Geringonça. Mais concretamente, para um acordo entre o PS e estes partidos para toda a legislativa.

            Ainda que com tónicas ligeiramente diferentes, tanto BE como PCP deram uma “nega” a Costa. Jerónimo afirmou a necessidade de uma “Política Patriótica e de Esquerda”, que é assinalada pelo regresso a uma orientação pré-Geringonça, que identifica, com razão, o PS com uma “política de direita”, oposta aquela que o PCP considera necessária. Ainda que com maiores nuances táticas, Catarina Martins também negou a proposta do PS. Como tem feito em diversos momentos, a Coordenadora do BE lembrou ao PS que o BE propôs um acordo à esquerda no início da legislatura e foi o PS quem o recusou. É entendível e até útil o cuidado do BE para colocar sobre o PS o ónus do desentendimento. Porém, esta argumentação tem um risco: coloca o acordo com o PS como desejável, ainda que indique que ele não é possível – por culpa do PS. Esta argumentação tem o problema de dificultar a apresentação da esquerda como uma alternativa de fundo ao Governo do PS. Remete a esquerda ao papel de pressão externa ao PS, assumindo que cabe a este o papel da Governação. Aliás, é isso que possibilita que Costa responda ao BE que se a esquerda fez campanha contra a maioria absoluta do PS, agora tem que se colocar de acordo com ele.

            É positiva a posição, tanto de BE como de PCP, contra novas Geringonças. Ela expressa, de alguma forma, o balanço da Geringonça que já tivemos oportunidade de fazer: “Se um acordo mínimo para impedir o retorno da direita em 2015 era necessário, a experiência dos quatro anos seguintes merece um balanço crítico. (…) Mas cremos que a reconquista de direitos não necessitava que se abdicasse de uma estratégia de confronto. Pensamos que, pelo contrário, do confronto com o PS poderiam ter resultado conquistas maiores.”[1]

            Porém, podemos ir mais longe. Porque nem o regresso a uma posição de oposição e protesto, nem a culpabilização do PS pela impossibilidade de uma nova Geringonça resolvem o problema de fundo: como lutar por um Governo de Esquerda. Queremos ajudar a essa reflexão. Não se trata de negar a possibilidade de negociar com o PS medidas parciais ou de ter táticas que demonstrem que as opções de Costa não são de esquerda. Trata-se de iniciar uma reflexão que vá além da tática e que aponte uma estratégia. As linhas abaixo pretendem ser uma breve reflexão nesse sentido.

Uma aliança à esquerda hoje poderá ser governo amanhã

            A fase da “Geringonça”, ou seja, de um apoio externo da esquerda à Governação do PS, terminou. Num cenário de crise económica e social crescente essa possibilidade esgotou-se. Perante isto, a esquerda está ainda em processo de relocalizar. BE e PCP negam e bem a Geringonça, mas resistem a voltar a uma mera política de “protesto”, o que é compreensível. Essa indefinição afeta não só estes partidos mas, dada a sua hegemonia na esquerda, também os movimentos sociais e sindical. Estes, desde aí, experimentam altos e baixos e recomposições interessantes, mas sem sair de uma posição de resistência e lutas parciais.

            António Costa governa a partir de sucessos parciais que teve. Eles foram, primeiro, a política de devolução de rendimentos no seu primeiro mandato, que mais não foi do que uma devolução muito parcial do que havia sido cortado pela direita. Foi também a gestão de uma conjuntura económica favorável. Esta permitiu sustentar-se em níveis altos de emprego e no regresso do crédito, mantendo a paz social. Fê-lo, depois, com uma gestão da pandemia que, num primeiro momento, evitou a catástrofe vista noutros países.

            Apoiado nestes fatores favoráveis, Costa conseguiu neutralizar os seus adversários políticos. À direita, mas, admitamo-lo, em parte também à esquerda. A direita ainda não se conseguiu recompor dos anos em que protagonizou a austeridade. A esquerda não tem como prosseguir uma aliança com o PS mas não consegue impor-se como alternativa. A indefinição dos seus adversários é a principal força de Costa, mais do que a sua própria governação. Apoiado nisso, o Governo reforça-se em plena crise. Contudo, as bases de sustentação do sucesso do PS ameaçam esboroar-se, junto com o PIB e o emprego.

            Este momento de viragem, em que as bases do sucesso do PS ameaçam ruir, deve ser o momento de uma recomposição estratégica da esquerda. É necessário, possível e começa a ser urgente. A direita ainda não recompôs uma alternativa que lhe permita sair ao ataque e lutar pelo Governo, mais um motivo para que a Esquerda se antecipe.

            A Esquerda, o movimento sindical e os movimentos sociais podem e devem constituir uma aliança, que se articule nas ruas, no Parlamento, nas eleições e na disputa de ideias. Assim, a Esquerda e a Classe Trabalhadora surgirão como um ator social capaz de apresentar uma saída para o país que seja oposta à direita, sem se limitar a um jogo de abstenções e negociações face à política do PS. Opor-se hoje ao Governo para o substituir amanhã, é disso que se trata. Assim a classe trabalhadora, não meramente como conjunto sociológico de pessoas exploradas nem meramente com eleitorado passivo, pode dar um passo em frente como ator social autónomo. Até mais importante, desta forma, pode ver-se a si mesmo como sujeito independente da mudança social, uno na sua diversidade.

Manuel Afonso


[1]     https://semearofuturo.com/about/

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